26 Julho, 2014

Desvidas


Há muito que F. não trabalha, desde que no seu corpo começaram a crescer “coisas más”; assim lhe chamam as pessoas, com medo de pronunciar o vocábulo maldito. Cancro. Não um, mas dois.

F., inicial do seu nome, de franzina, que consigo rimava, mas também de força, aquela com que deu luta à doença durante os últimos anos. Não somos propriamente amigas, mas liga-nos uma vida de trabalho e de algumas conversas simpáticas que tivemos, sobre filhos, sobre a vida, sobre a necessidade de largar vícios e até sobre a doença que a minava aos poucos. E impossível não sentir carinho por ela. Doce, frágil, de sorriso tímido e maroto e corpo saltitante.

Hoje ganhei coragem, a que me tem faltado e que encontra sempre muitos argumentos, e fui vê-la. Que estava bonita e lhe ficava bem a maquilhagem, assegurei. Falámos uma vez mais dos filhos, dos dela, dos meus, dos dos outros. Do trabalho, da vida e da solidão com que ela se tem desenhado. E lá estava o seu sorriso. Tímido e maroto. O corpo já não saltitante, mas desse, nem uma palavra, nem do que continha lá dentro. Bebemos chá e fez-me prometer que agora sim, iria largar o vício do tabaco, tantas vezes tema das nossas conversas. Despedimo-nos com um abraço longo.

Assim quero eu escrever a história.

25 Julho, 2014

E Gaza aqui tão perto


A questão nem sequer é exactamente Gaza. Porque podia não ser Gaza e ser outro local remoto do planeta, ou até mesmo aqui ao lado. E também não é a justiça ou injustiça do que lá se passa. Porque nenhuma guerra é justa. A questão é a imagem no espelho que esta guerra fratricida nos devolve.

Enquanto centenas, muitas centenas, são dizimadas e espoliadas do pouquíssimo que já era o seu mundo, uma imensa maioria continua no seu mundo ridiculamente comezinho - afinal, Gaza ali tão longe. Continuamos alegremente a “postar” postas de pescada nas páginas das redes sociais, fotografias de um pretenso ameno verão, queixando-nos, é certo, do tempo que vai incerto, comentários acerca do concurso de domingo que nos traiu, imagens das jarrinhas de flores que enfeitam a casa, do creme para a cara infalível no combate às rugas, selfies, festivais sazonais, e mais uma selfie sem percebermos que nos traímos a nós próprios, porque a humanidade é traiçoeira e entrou em colapso. E porque a vida continua, é certo, e é também justo o júbilo por momentos felizes, partilhado com amigos e com a família. Mas a dimensão da indiferença tem-me feito pensar muito. Por vivermos de tal forma autocentrados e por ela ser o reflexo do medo; o medo de nos manifestarmos, o de tomarmos partido por uns ou por outros com toda a exposição perante o olhar crítico dos 666 amigos que temos na rede e que podem, afinal, guardar de “mim” uma imagem de amigo dos árabes, que são aqueles que quiseram as crenças sociais transformar em preguiçosos, bombistas, violadores dos direitos das mulheres e umas tantas coisas mais. E caímos em desgraça porque ficamos mal na selfie!

Quando eu era gaiata e que a televisão tinha, como dizia o meu pai, 1º e 2º esgoto, o momento das notícias era quase solene em casa. Os adultos viam notícias em silêncio e as crianças retiravam-se para os quartos, porque a elas era permitido o alheamento. Hoje já ninguém vê notícias. Porque centenas de canais, há sempre um que nos permite, enquanto o mundo é desfiado, assistir a um qualquer estupidificante concurso de master qualquer coisa, chefe, gordo, inteligente, mas sempre master. Porque queremos assistir ao engrandecimento de uma criatura que não conhecemos de lado nenhum, mas também à humilhação dos que vão sendo eliminados. E mesmo que vejamos notícias, podemos sempre confundir os tiros do Mundo com aqueles que ainda há pouco, mesmo antes de zappar, o Johnn Wayne desferiu no índio malfeitor. Negamos a actualidade do Mundo, para negarmos a nossa própria actualidade.

Vivemos tempos que nos reduzem a nada e pensamos sermos muito. O sistema financeiro ocidental faliu, e questiono-me se essa falência será causa ou consequência da falência de valores, ou se apenas de mãos dadas. O nosso mundo pequenino, aquele em que cada um de nós gravita, longe, longíssimo de Gaza, está cheio de pequenas guerras, marcado por intolerância, palavras amargas, provas de individualismo e de indiferença para com o outro que, também ele, mora ali longe ou que até talvez partilhe a mesma cama, mas a ele as suas dores, que eu também tenho as minhas. E queremos fingir que tudo vai bem, porque enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Também aqui não sei qual a ordem a atribuir; se reproduzimos à escala micro o que vai mal na macro, ou se o macrocosmos reflecte a instabilidade dos muitos microuniversos tumultuosos que temos criado.

Não sou indiferente, há muito, ao que se passa em Gaza. Como não sou com os milhões de deslocados e de refugiados que temos por este mundo fora, vítimas de guerra, de pobreza, de tiranias de senhores do mundo que os querem esfomeados porque de barriga vazia não se pensa e é-se submisso. Mas sou ainda menos indiferente a esta escravidão velada, silenciosa, que faz de nós seres passivos perante uma humanidade em implosão. E não pense ninguém que a carapuça não me entra. A verdade é que agora mesmo parto para o meu duche, visto-me e vou seguir a minha vida. E talvez apenas porque o tempo não está de feição, lá pouparei o Mundo de saber em que praia eu estou, coisa que lhe interessava de sobremaneira. Temos pena.  

24 Julho, 2014

O mundo precisa

De justiça, de bom senso, de seriedade, de sobreidade, de alegria, de força, de rectidão.  Precisa que se acabem as meias tintas, os relativismos e as normalizações. O Mundo precisa do Bem e do Mal.

23 Julho, 2014

Em repeat

Tinha saudades de uma música cantada, com uma história, como esta:



E parte de uma história maior e alucinada aqui.

Da cegueira


Oh, por favor, está calado! Não vês que bombas explodem nos meus olhos? E corpos preenchem o chão, a maioria crianças, mulheres choram as dores que não contêm o corpo, porque esse já não chega para conter nada, homens vagueiam na solidão do desespero, procurando sinais do que era uma casa e do que era família. E tu, as tuas dores, os teus ouvidos, o teu joelho, e agora mais o coração que isto e as costas que aquilo. Bombas explodem nos meus olhos! Nos teus não?

17 Julho, 2014

Verde Limão

No outro dia ultrapassei uma lambreta, verde limão, com um casalinho pipoca dependurado lá em cima.
Tive saudades de ter 20 anos, um amor de verão e três meses de férias.

Bipolaridade

Ainda que não seja a esquizofrenia, a bipolaridade já é muito bom!!

boa!!

Consegui! De volta ao antigo formato!

10 Julho, 2014

Amanhos

Do uso e do tempo, estás um um bocadinho estragado. Estás lento, confuso, baralhado. Vamos arranjar-te e ficas como novo. E vamos poder brincar como dantes!

08 Julho, 2014

espelho meu

Espelho meu: devia ser escritora, se fosse um animal era um cisne, sou o ObiWan, o meu evil twin (é mesmo) o Darth Vader, se fosse uma flor era uma rosa, devia viver em Londres e tenho um IQ de génio. Quem sou eu?

03 Julho, 2014

Saudades

Tantas! Quantas!!
Do teu recolhimento, do teu anonimato, do teu silêncio!
Preciso de ti. Já não te quero matar, afinal.
Vais ser meu. Só meu. Elas vão brincar lá fora. Onde está sol, onde há barulho, confusão, gente, tanta gente, tanto barulho, Deus meu. Vou ficar aqui um bocadinho. Só nós. Como dantes. Pode ser?

03 Abril, 2013

Nova caderneta de bairro

A espanhola da tasca onde compro cigarros e que tem cara de bruxa má num dia de folga, o barbeiro bêbedo que a mulher pôs fora de casa e agora vive na barbearia com a montra partida,  a jovem cineasta que largou as artes e abriu um café modernaço cheio de móveis reciclados e cartazes de cinema, o bigode do senhor da mercearia que sorri sempre que passo, o segurança do prédio recuperado que guarda o castelo fantasma que nunca mais é habitado, os homens do talho que conversam na rua enquanto fumam cigarros intermináveis, o farmacêutico musicólogo que aproveitou a boleia do negócio familiar para se salvar de uma vida de criatividade e penúria e agora avia receitas a assobiar. 

03 Novembro, 2012

Para dias assim-assim

Na grafonola, e com volume sonoro alto a bem alto, coloque Caetano Veloso, qualquer um que tenha à mão. Em seguida, feche os olhos e deixe-se inundar pela alegria da música e optimismo dos seus poemas. Na sua boca verá então surgir o esboço de um sorriso. Acentue-o. Aos poucos, deixe o seu corpo mexer-se, até ter ganho vida própria. Quando atingir esse ponto, o seu dia ter-se-á transformado num dia-sim. Cubra tudo com uma boa leitura e acompanhe com uma bebida quente.

31 Outubro, 2012

Porque sim!

Porque este é um blog de várias lutas, das íntimas mas também daquelas que temos a convicção de serem as lutas necessárias enquanto criaturas politizadas e civicamente activas. Porque a liberdade nos está a ser coartada, gritemos bem alto que temos direito a ela e ergamos marés, sem medos. Porque nós sabemos nadar!

30 Outubro, 2012

fio fio fiuuuu fiuuu fiiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuu uuuuuuu

iuuuuu, belas adormecidassss....

e que tal um desafio para ajudar a acordar? e os leitores e leitoras que andarem por aí meio adormecidos também podem participar.

o desafio é para  continuar a encher o chouriço, salvo seja, do label "medicina musicopática".
Tanto podem ser posts como videos (curtos de preferência), feitos com o telemóvel ou como quiserem.

para quem quiser participar do nosso inestimável público (e ouve-se uma aranha a descer pelo seu fio no meio de uma sala vazia) basta enviar o texto ou video para oitoecoisa@gmail.com e será publicado (devidamente identificado e inserido na nossa licença de creativecommons).

até 1 de dezembro de 2012.

aceitam?  alguém tem algum outro desafio para a troca?


Para os dias em que não se sabe quem se é

"Alice", de Bernardo Sassetti. Pôr a meio tom e quando atingir a faixa 15 fazer um repeat uma, duas, dez vezes, tantas quantas as necessárias para me encontrar no piano e reconstruir o puzzle do corpo que é o meu.
Risquei o teu nome de
todos os compêndios de História universal
Rasguei-te de todas as
fotografias
Fechei todas as portas e janelas
por onde pudesses entrar
Cortei estradas, dinamitei
pontes
Cuspi o meu ódio em todos
os rios e mares
Cortei veias (cortei-te as veias!)
Matei-te e gritei a tua morte como
quem ergue o triunfo de uma caçada.
Matei-te. Mas tu não me morreste.

22 Outubro, 2012

Para os dias em que se sabe quem se é


(Ler em voz alta procurando fazer entoações diferentes ou inventando músicas. Repetir duas ou três vezes ao dia. Pode deixar ao alcance das crianças.)

Eu sou fado, sou guitarra, sou merengue, 
bossa nova e funáná. 
Sou passada, sou quizomba, sou qualquer.

Sou bolero e tango, 
vallenatos e rancheras, 
sou Martirio, sou “a pele que há em mim” 
nos dias em forma de assim.

Sou corridinho, sou chorinho, 
sou brasil, sou carinho e cafuné.
sou zouc,
salsa
e son,
sou para o que der e vier

Sou jazz, sou soul, sou Aziza,
Sou cumbia, sou vira,
e viro e torno a virar, 
a roda vai continuar, 
a ver se me entranhas 
ou se ficas lá no ar, 
que eu sou fado, sou guitarra, sou merengue, 
sou qualquer 
e sou
só uma.

Para dias de limpeza na casa e/ou de concentração

a flauta mágica de mozart. Pôr o volume em doses generosas, deixar inundar toda a casa e abrir as  janelas, faça chuva ou faça sol. 

Para as avarias da vida


variações goldeberg (bach). Alternar entre a primeira e a segunda gravação, duas ou mais vezes ao dia. Pode afetar a condução de veículos.


18 Outubro, 2012

a insustentável estranheza do eu


Olho-me fixamente no espelho e por mais que olhe de um lado do outro e de trás, continuo a ver aquela que já não quero ser mas que continua pegada a este corpo que parece ser meu.

08 Outubro, 2012

Viúvas cruzadas em linhas de tempo paralelas


Ás vezes, caminhar no meu bairro, onde nasci, cresci e onde revivo agora, é como caminhar em linhas cruzadas de tempo, onde o passado se espelha no presente como sacudidelas à memória e à consciência entorpecidas. Estou na paragem de autocarro, de novo em dia de greve de metro, e vejo-as atravessar a estrada a caminho da Igreja.
Passam de braço dado, cada uma apoiando na outra as dores das muitas idades dos seus corpos, as duas vestidas de negro carregado e púdico, escondido. Parecem iguais às viúvas do meu bairro de há 30 e muitos anos atrás, quando eu era uma miuda e quase todas as mulheres avós eram viúvas, a dona antónia do sr brás cuja cara juro que vi no céu em forma de nuvem no dia em que morreu, a augusta do nogueira que morreu levado pelo cancro, a dona firmina, a dona brilhante e tantas outras. Passam, antes como agora, com aquele ar de que lhes pesa a vida, a existência,  circunscrevendo-se num mundo de hábitos enraizados e repetidos no dia a dia de dar continuidade a um morto e suportar o peso de um corpo. Se hoje são octogenárias, quando eu era criança. deveriam andar nos 50. Ou seja, poderiam ser quase da minha geração actual, podiam ser eu, qualquer uma de nós hoje. Dentro de uns anos também vamos ser as velhas, as senhoras maiores do futuro, vamos ser amanhã uma parte do que somos hoje. É um bilhete faz favor, que me esqueci outra vez de carregar o cartão. Eu só desejo que ainda que nos possa pesar o corpo, não nos pese a existência. 

da importância das costas

Tenho umas ervilhas com ovos escalfados ao lume e enquanto espero que fiquem no ponto, queria comentar-vos uma coisa de interesse público para a humanidade, ou pelo menos para mais de metade da mesma, ou pelo menos para umas tantas…e é que não são uma, nem duas, nem três as mulheres que se queixam que muitos homens ignoram por completo as suas costas e nem festas, nem caricias nem massagens a esta zona tão importante do nosso corpo, nem no acto sexual nem fora dele. Alguns parecem desconhecer ainda que para além de vagina, clitoris e mamas, as mulheres temos costas e nelas temos omoplatas, coluna, ombros, ancas, lombares, muitas curvas e concâvos, muitos caminhos por onde as vossas mãos, lingua, cara, cabelo, tronco, pernas, pénis podem percorrer, saborear-se e deleitar-nos. Explorem-nos, perguntem-nos, ouçam-nos, conquistem-nos e percam-nos, percam-se em nós e verão como pode ser simples chegar ao céu sem sair da terra. 

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06 Outubro, 2012

ebulição

Em mim tudo está tenso, os meus ovários, as minhas mamas,  as minhas veias acumulam sangue que as pressiona e me pressiona. Tudo me parece negro, o mundo é um lugar inóspito e sem sentido. Abro a janela para o mundo e no écran dou-me conta de que o país e a sua bandeira estão ao contrário,  há um congresso de alternativas democráticas que discutem não sei que alternativas, há gente desesperada, há gente com raiva, a violência parece estar preso por um  débil fio, há ministros rodeados de guardas costas com medo de sair à rua, o caldeirão da nossa vida ferve, ferve, ferve.  O sangue escorre-me por entre as pernas e tudo se distensiona em mim, recupero o meu corpo, recupero a cordura, esboço um sorriso. Mas lá fora tudo continua em tensa calma, ferve, ferve, ferve. 

05 Outubro, 2012

Uma manhã

Sentei-me ao lado dela no autocarro. No colo, um caderno onde escrevia furiosamente.

2ª feira
pão € 1,60
legumes € 3,80

3ª feira
pilhas relógio pedro € 3,40
passe € 35


Encolhi-me na pornografia da minha riqueza. Sim, ando de autocarro. Sim, não compro roupa há meses. Sim, também sinto que o bolso encolhe a cada dia. Mas ainda não faço conta aos cêntimos do dia.


Tenho vergonha e medo e raiva do mundo em que vivemos.

quantas vezes

quantas vezes terás de morrer em mim para que eu possa um dia nascer sem ti?

03 Outubro, 2012

retratos

Ás vezes penso em ti, és um retrato a preto e branco guardado no hábito da minha memória e que pretende ser presença na minha realidade multicromática. Não existes. 

Uma manhã, num autocarro.

Num banco de dois lugares eu e um senhor de 80 anos que parecia ter 60. De pé, junto ao nosso assento, um tipo de quarentas, jeans rasgado de cima a baixo e uma camisola que lhe deixava ver o umbigo, com um headphones por onde ele e toda a gente ouvia rock a abrir e uma rapariga que devia ter 30 mas parecia de 40 e que falava ao telemóvel com voz estridente e despachada. Nos instersticios, magotes de gente a tentar chegar a algum sitio em dia de greve do Metro. O senhor levanta-se abruptamente, pousa todos os seus papéis no banco põe-se a procurar o seu bilhete. O autocarro curva para um lado, curva para o outro e o senhor tambaleia para um lado, tambaleia para o outro. Eu em sobressalto atenta a ver se o podia agarrar, o tipo do rock e a rapariga também, os 3 a fazer um cordão de segurança à volta do senhor, algumas pessoas à nossa volta também atentas ao iminente desiquilibrio do senhor. Depois de muito procurar ao ritmo das curvas, arranques e travagens, o senhor resolve ir até ao motorista contar-lhe a sua situação, a rapariga dispõe-se a ir com ele e resolver já tudo, não se preocupe, vai ver que tudo tem solução, tudo isto sempre em voz muito alta, o que ajuda a que todo o autocarro já esteja inteirado da situação do senhor e participe também na missão “à procura do bilhete perdido”. Entretanto o senhor encontra o bilhete, que afinal nunca tinha saído do bolso das calças e senta-se de novo ao meu lado, contente.

Depois de um minuto de contentamento colectivo, ouve-se: pois, hoje em dia as pessoas já não estão dispostas a ajudar ninguém, e começa-se a dissertar sobre esta certeza agora colectiva. E o senhor ajudado concorda, agora anda tudo muito individualista, já ninguém ajuda ninguém. A rapariga estrondosamente prestável, diz: o que me consola é o meu paizinho que me diz, ó filha, tu és uma santa!, tens um lugarzinho no céu à tua espera. O senhor conta uma desgraça recente, o meu carro avariou numa estrada do algarve e ninguém parou, é inacreditável. Mas num momento, fica em silêncio, pára, pensa e diz: mas a verdade é que eu também não pararia, a gente sabe lá, hoje em dia há tanta gente a querer fazer mal, ainda outro dia contou-me um vizinho meu que parou o carro na autoestrada… e continua com o tema da desgraça em que está este mundo. 

Chega a minha paragem, desço do autocarro, e lá dentro fica o senhor com o seu bilhete no bolso, a rapariga despachada e alma caridosa com lugar no céu, o rapaz do rock que mais coisa menos vai precisar dos serviços da Sonatone e mais outras tantas pessoas solidárias que também procuraram o bilhete ou estiveram com atenção para o senhor não cair, a falar da desgraça em que está este país, o mundo, ninguém ajuda ninguém.

01 Outubro, 2012

Telelavores boa tarde, em que posso ajudar?

- Boa tarde, ouvi dizer que a Telelavores tem um serviço de xailes por encomenda. 
- Sim senhora, confirmo. Trabalhamos com os melhores materiais e executamos o modelo que os clientes desejam. 
- Então faça a fineza de tomar nota do meu pedido. Eu queria um xaile negro BDSM. De lã virgem, claro. 
- Tem preferência pelo material das franjas do xaile? Podem ser em cabedal?
- Franjas, só em vinil.É que o meu escravo é vegan.



de um porto italiano ao futuro




Recentemente resolvi comparar os dvds do Marco para mostrar à minha filha e recordar a série que tanto me tinha presa à televisao sofrendo pelo míudo que nao encontrava nunca a mãe. Nem tinham passados 10 minutos do primeiro episódio e já estava eu a correr para a casa de banho, a chorar convulsivamente, carpindo memórias que pensava esquecidas, perante o olhar espantado da minha filha. Ao terceiro episódio lá recuperei e comecei a seguir a história. É curioso, quando era míuda não tinha reparado que o Marco tinha de trabalhar para sobreviver, que bebia vinho, que além de ir à escola tinha de trabalhar em casa para poder ajudar a sua familia e que estava separado da sua mãe porque ela teve de imigrar para poder ganhar dinheiro para a familia. Ou que queria ser médico quando fosse grande e  às vezes parecia um homem pequenino e não um menino, ainda que o seu macaquinho puxava-o para as macacadas próprias das crianças.
Quem sabe um dia, quando daqui a minha filha mostrar o dvd do marco aos seus filhos, se possa dizer sem desmentir as estatisticas: ainda bem que agora as coisa já não são como no tempo da avó e dos bisavós e dos trisavós. Agora, quase nenhuma criança no mundo que passa fome, frio, vai à guerra, é separada da sua familia ou tem de trabalhar. Agora, as crianças dedicam-se a aprender as suas coisas da escola, dedicam muito tempo à pintura, às artes e ao desporto e ajudam as pessoas adultas e as mais velhas a não se esquecerem como é bom ser feliz com coisas simples.

30 Setembro, 2012

Ontem


reuniram-se as múltiplas só porque sim, tinham saudades de estar juntas. Têm um blog em comum onde em geral não escrevem. Quando se encontram  falam do blog e de outras coisas. Em geral começam a falar do blog e logo o tema varia. Falam muito de política actual, mas  desta vez, derivado ao facto que a situação do país e do mundo está muito escaldante e que cada cabeça sua sentença e antes que fosse só esse o tema do jantar e se  engalfinhasem  todas, resolveram vetá-lo (só por este jantar, porque elas não se aguentam e que porque a diferença faz parte da vida). Também perdem horas a falar de crochet: eu agora cada vez que penso em homens, começo logo a imaginar como fazer naperons, ou, o sexo tântrico para mim é como o crochet, sempre são coisas que eu penso que um dia gostava de experimentar, uma tipa numa festa de bdsm ia toda vestida de cabedal e por cima tinha um vestido de rendas negro como os dos panos de tabuleiro das avós. De síntese ficou uma bela reportagem gráfica, a tarefa de ver a casa dos segredos para poder falar disso com propriedade no próximo jantar, uma sala com as janelas abertas há dois dias para fazer sair o cheiro a cigarros e,  apesar de que  aparece um facalhão no registo gráfico, não temam, estava destinado ao bolo de brigadeiro, ainda não foi desta que matámos o oito e coisa. A recuperação pode estar por um fio. Ou não.  Só nós dDeus e as oito e coisa nove e tal é que sabemos. 

24 Setembro, 2012

Tem dias

Tem dias em que acordo e sinto que estou fora do tempo. Ou que o meu tempo já passou. Olho em volta e sou a inveja. 
Inveja da lisura da pele. Inveja dos anos que se tem pela frente quando se tem vinte. Inveja de tudo o que se pode vir a fazer. Inveja da surda admiração que a juventude acorda. Não por nada de especial, mas pela simples e fugaz perfeição material dos corpos ainda intocados. 
Descubro: o meu tempo já passou.E quando o tive, fui a mais inconsciente das criaturas, sentada na soberba de tudo o que havia de vir. 
Tem dias que deviam ser noites. O sono é a melhor forma de esquecimento.

17 Setembro, 2012

O prazer da leitura






À nossa frente, mulheres que lêem um livro. Tudo o que as faz hesitar, suspirar, sorrir, passa-se fora do nosso olhar.

Não me importava de ser a próxima cobaia.



09 Setembro, 2012

As férias




Sabe, menina, este ano só vou uma semanita, aluguei uma casita no Algarve, é mais por causa da minha filha, está a ver o que seria se a miúda não tivesse nada para contar das férias às amigas da escola, as outras miúdas cheias de histórias e a minha sem nada para lembrar, por isso este ano aluguei um apartamentozito perto de Quarteira, mas este ano só dá mesmo para uma semanita.

Eu gosto muito das minhas férias e aproveito para fazer o que não faço durante o resto do ano: sento-me na esplanada da praia a vigiar os mergulhos da miúda - e dos magarefes que já começam a por olho nela – e hidrato-me por dentro, uma duas três minis até ficar saciado. Chega, então, a vez de me hidratar por fora: levanto-me da cadeira de poliuretano da esplanada, deixo a mini e os tremoços, pego na miúda pela mão (às vezes até a ponho aos ombros) e mergulhamos os dois na água cálida deste mar, “oh pai não me atires assim tão alto, oh pai olha que os meus amigos estão todos a olhar para nós, oh pai pára com isso”, mas eu não ligo. Do que a miúda precisa é de uns bons momentos com o pai desde que a mãe ma começou a entregar todos os fins-de-semana de 15 em 15 dias, dizia que eu era violento, que a guerra me tinha pisado uns parafusos, mas verdade verdadinha é que eu não nunca fui do tipo de levantar a mão a uma mulher, posso ter dito umas coisas das quais me arrependo, mas nunca nenhuma das duas levou uma cachaporra daquelas, isso era no tempo dos meus pais quando fugíamos à escola, aí sim era porrada a valer, três dias a mondar o campo, e agora vem-me esta miúda queixar-se dos três mergulhos com que a atiro à água. Duvido que estes miúdos estejam preparados para a vida, com que responsabilidade é que vão tomar conta de nós, dos seus pais, se não sabem nada de nada da vida, é tudo dado por adquirido, até esta semanita de férias aqui neste apartamentozito em Quarteira?

Como é que vou pagar as férias? Isso é só fazer contas, graças a deus que nunca me falhou essa vocação. No meu caso, deixo acumular duas contas de eletricidade e quando receber o aviso de corte vou logo à loja do cidadão e pago em dinheiro vivo. Este ano vou fazer o mesmo com o gás, já tenho gás natural no bairro onde vivo, graças a deus, duas contas acumuladas e a garantia de férias no apartamentozito do Algarve. Não se preocupe menina, eu depois faço horas extraordinárias neste carro onde a conduzo, se for preciso 12, 13, 14 horas por dias. A única coisa certa é que a minha miúda vai ter que o que contar às amigas quando voltar à escola.

15 Fevereiro, 2012

14 de fevereiro

Não é hoje porque foi ontem. Foi ontem que quis fazer-te esta homenagem de tantos anos que levaste a martelar-me os ouvidos, a mim e às minhas irmãs, com esta Procissão. Era isto e o chapéu aos quadradinhos, sempre igual, apenas aumentava o número de chapéus. Mas ontem fiquei inerte, mãos presas, à espera apenas de te ouvir cantar e a tua voz a martelar-me os ouvidos.

05 Fevereiro, 2012

o drama, o horror

Não é verdade, mas podia ser.
Mais do que as birras e as noites sem dormir da infância, as febres e cabeças partidas, sobreviver à adolescência dos filhos é um milagre.


Brain-Dead Teen, Only Capable Of Rolling Eyes And Texting, To Be Euthanized

mais um brilhante video the onion

11 Janeiro, 2012

E um feriado pessoal para nos celebrarmos a nós mesmas?



Para mulheres que não desistem de si e de serem bonitas. Falo de nós, globulistas deste gulob em mudança inspiradora.

Por tudo e por nada

Por todas as más palavras que te mereci e as boas que nunca haviam de chegar, as noites em desassossego, os jantares à espera ou com fim trágico, a prepotência com que irrompias pela nossa casa e impunhas os teus humores de fel, pelas vezes que me rasgaste por dentro... apenas quero agora dizer-te que a minha casa é o meu continente e a minha cama demasiado pequena para conter mais que um corpo, o meu.

fotos do fogo

(ou outra forma de contar a guerra colonial)

Fotos do Fogo


Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

A guerra deu na tv
foi na retrospectiva
corpo dormente em carne viva
revi p´ra mim o cheio aceso
dos sítios tão remotos
e do corpo ileso
vou-te mostrar as fotos
olha o meu corpo ileso

Olha esta foto, eu aqui
era novo e inocente
"às suas ordens, meu tenente!"
E assim me vi no breu do mato
altivo e folgazão
ou para ser mais exacto
saudoso de outro chão
não se vê no retrato

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

Nesta outra foto, é manhã
olha o nosso sorriso
noite acabou sem ser preciso
sair dos sonhos de outras camas
para empunhar o cospe-fogo e o lança-chamas
estás são e salvo e logo
"viver é bom", proclamas

Eu nesta, não fiquei bem
estou a olhar para o lado
tinham-me dito: eh soldado!
É dia de incendiar aldeias
baralha e volta a dar
o que tiveres de ideias
e tudo o que arder, queimar! no fogo assim te estreias

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

Nesta outra foto, não vou
dar descanso aos teus olhos
não se distinguem os detalhes
mas nota o meu olhar, cintila
atrás da cor do sangue
vou seguindo em fila
e atrás da cor do sangue
soldado não vacila

O meu baptismo de fogo
não se vê nestas fotos
tudo tremeu e os terremotos
costumam desfocar as formas
matamos, chacinamos
violamos, oh, mas
será que não violamos
as ordens e as normas?

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

Álbum das fotos fechado
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas
num livro as amassamos
logo após cortadas
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
quando a recordo
sei que quase logo acordo
a morte dorme parada
nesta morada

aguçadamente escrito pelo sérgio godinho e enternecedoramente cantado por ele, Carlos do Carmo e Camané no ámbum "O Irmão do Meio".

10 Janeiro, 2012

trezentosesessentagraus

Adoro decoraçao, adoro mudar tudo. Gosto de arrastar móveis, repensar espaços, imaginar e ensaiar como os mesmos objectos podem modificar um ambiente de um espaço, gosto de ver tudo a circular e a mudar de sitio, para continuar em frente com a vida mas com uma lufada de ar fresco. Gosto de mudar a minha casa e gosto de mudar as casas das minhas amigas e amigos, ainda que nem sempre a coisa saia bem, como quando dormi na sala da casa de uma amiga e a acordei de madrugada para lhe perguntar se podia mudar uma ou outra coisinha na sala, ao que respondeu que sim meio ensonada e quando acordou na manha seguinte teve um baque e um ataque de surpresa e agrado mas com uma nesga de mau humor, que atribuí à possibilidade de não ter dormido bem por causa do barulho dos móveis a arrastar durante a noite. É a única explicação que encontro para me ter feito voltar a pôr tudo no seu lugar inicial.

à berlinda ao serviço da pátria

Outro dia o meu pai, numa viagem de carro a propósito de umas fotografias de que precisava, contou-me que uma vez, acabado de vir da guerra e precisando de renovar o bilhete de identidade, foi tirar uma fotografia numa qualquer fotomaton. Sentou-se no banquinho giratório ajustado á sua medida, olhou em frente, e não aguentou, desatou a gritar e a correr dali para fora, assustado pelos sucessivos flashes da máquina. O meu pai disse que a minha mãe contava isto como uma história divertida, em que ela se escangalhava a rir (quando ria com gosto a minha mãe era mesmo muito efusiva). Mas ao contrário, continuou ele com um certo pesar, já punha um tom mais sério quando contava a história do senhor neves, quando recém regressado de angola ao serviço da pátria, que uma vez estava num café quando o empregado deixou cair a bandeja grande e metálica no chão e imendiatamente ele se pôs debaixo da mesa. Acho que o meu pai se lamentava por ela reconhecer o senhor neves como um afectado da guerra e não reconhecer nele as consequências da guerra. Com este episódio dei-me conta que ultimamente por uma razão ou por outra, a guerra colonial anda na berlinda da minha vida. Quase todas as minhas amigas têm pais que foram à guerra, que partiram jovens e foram fazer uma guerra que não era sua.. Alguns tentaram ser refugiados em frança ou na suiça mas poucos o conseguiram. A julgar pelo meu pai e pelo que vou pescando dos seus, só muito de quando em quando falam desse tema, até podem analizá-lo, racionalizá-lo enquanto fenómeno politico e social condenável, obviamente com motivos económicos identificáveis, com consequência sociais e até psicológicas para os soldados da guerra, esse ente externo e estranho, mas, portas dentro de casa e de si, fez-se silêncio, já passou, não se fala para que ele não possa viver de novo, a gente tem que ser forte e ninguém quer ser um inválido de guerra, o que lá vai lá vai, os miudos ainda podem ficar impressionados. Ou então contam os seus actos de bravura, elogiam os seus reflexos apurados, a sorte, a camaradagem e as dificuldades com os outros como eles. Pouco dizem sobre o horror do que viveram, ainda que este às vezes se lhes escape surdo nos pesadelos que lhes trazem de novo o que viveram na guiné, moçambique ou angola. Talvez esse não dizer seja uma forma de apagar esse tempo, ou talvez não consigam encontrar dentro de si as palavras para contá-lo sem que volte a fazer-lhes mal. Talvez se tenham convencido de facto que já passou. Mas ela esteve aí, a guerra colonial existiu, a que conhecemos e a que adivinhamos. Afectou os nossos pais, as nossas mães, as nossas familias e até a nós, que tentamos conhecer e compreender melhor a presença surda e muda desse tempo que anda à berlinda nas nossas vidas.

08 Janeiro, 2012

Alta voltagem

Vou oscilando entre uns minutos na cadeira eléctrica e enfiar os dedos na tomada. Porque eu gosto mesmo é de uma bela descarga.

07 Janeiro, 2012

O cúmulo da ironia (história verídica com nomes semi fictícios)

Ricardo e Carlos eram dois jovens que em comum tinham o bairro em que moravam e o verem-se convocados para a mesma guerra embora em palcos diferentes. Ricardo, filho de gentes abastadas, iria parar à Guiné, onde o terreno era difícil e as balas, muitas, resultavam em grandes perdas para a nação que Salazar comandava; o outro, menos endinheirado e filho de pai que queria dar-lhe uma lição de vida e ensinar-lhe o que é "ser homem" (expressão sempre dita com vários pontos de exclamação a marcar o orgulho pelo produto final viril), não o poupando a esta tortura, tinha passagem marcada para andar aos tiros em Angola. A família do primeiro moveu influências e solicitou uma troca de postos com Carlos, o que veio a assegurar mediante a oferta de umas quantas notas de mil escudos. Quis o destino que a aventura de Ricardo em Angola não durasse mais de um dia. Haveria de regressar à metrópole, como tantos outros, em posição horizontal e mais rapidamente do que era suposto. Já Carlos cumpriu quase todo o serviço na Guiné até ao dia em que os estilhaços de uma mina o interromperam. E viveu uma vida em permanente conflito consigo próprio, uma vida na qual nunca mais se ergueu em absoluto, mas uma vida cheia e longa.