Não é hoje porque foi ontem. Foi ontem que quis fazer-te esta homenagem de tantos anos que levaste a martelar-me os ouvidos, a mim e às minhas irmãs, com esta Procissão. Era isto e o chapéu aos quadradinhos, sempre igual, apenas aumentava o número de chapéus. Mas ontem fiquei inerte, mãos presas, à espera apenas de te ouvir cantar e a tua voz a martelar-me os ouvidos.
15 de Fevereiro de 2012
5 de Fevereiro de 2012
o drama, o horror
Não é verdade, mas podia ser.
Mais do que as birras e as noites sem dormir da infância, as febres e cabeças partidas, sobreviver à adolescência dos filhos é um milagre.
Brain-Dead Teen, Only Capable Of Rolling Eyes And Texting, To Be Euthanized
mais um brilhante video the onion
17 de Janeiro de 2012
11 de Janeiro de 2012
E um feriado pessoal para nos celebrarmos a nós mesmas?
Para mulheres que não desistem de si e de serem bonitas. Falo de nós, globulistas deste gulob em mudança inspiradora.
Por tudo e por nada
Por todas as más palavras que te mereci e as boas que nunca haviam de chegar, as noites em desassossego, os jantares à espera ou com fim trágico, a prepotência com que irrompias pela nossa casa e impunhas os teus humores de fel, pelas vezes que me rasgaste por dentro... apenas quero agora dizer-te que a minha casa é o meu continente e a minha cama demasiado pequena para conter mais que um corpo, o meu.
fotos do fogo
(ou outra forma de contar a guerra colonial)
Fotos do Fogo
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
A guerra deu na tv
foi na retrospectiva
corpo dormente em carne viva
revi p´ra mim o cheio aceso
dos sítios tão remotos
e do corpo ileso
vou-te mostrar as fotos
olha o meu corpo ileso
Olha esta foto, eu aqui
era novo e inocente
"às suas ordens, meu tenente!"
E assim me vi no breu do mato
altivo e folgazão
ou para ser mais exacto
saudoso de outro chão
não se vê no retrato
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Nesta outra foto, é manhã
olha o nosso sorriso
noite acabou sem ser preciso
sair dos sonhos de outras camas
para empunhar o cospe-fogo e o lança-chamas
estás são e salvo e logo
"viver é bom", proclamas
Eu nesta, não fiquei bem
estou a olhar para o lado
tinham-me dito: eh soldado!
É dia de incendiar aldeias
baralha e volta a dar
o que tiveres de ideias
e tudo o que arder, queimar! no fogo assim te estreias
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Nesta outra foto, não vou
dar descanso aos teus olhos
não se distinguem os detalhes
mas nota o meu olhar, cintila
atrás da cor do sangue
vou seguindo em fila
e atrás da cor do sangue
soldado não vacila
O meu baptismo de fogo
não se vê nestas fotos
tudo tremeu e os terremotos
costumam desfocar as formas
matamos, chacinamos
violamos, oh, mas
será que não violamos
as ordens e as normas?
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Álbum das fotos fechado
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas
num livro as amassamos
logo após cortadas
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
quando a recordo
sei que quase logo acordo
a morte dorme parada
nesta morada
aguçadamente escrito pelo sérgio godinho e enternecedoramente cantado por ele, Carlos do Carmo e Camané no ámbum "O Irmão do Meio".
Fotos do Fogo
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
A guerra deu na tv
foi na retrospectiva
corpo dormente em carne viva
revi p´ra mim o cheio aceso
dos sítios tão remotos
e do corpo ileso
vou-te mostrar as fotos
olha o meu corpo ileso
Olha esta foto, eu aqui
era novo e inocente
"às suas ordens, meu tenente!"
E assim me vi no breu do mato
altivo e folgazão
ou para ser mais exacto
saudoso de outro chão
não se vê no retrato
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Nesta outra foto, é manhã
olha o nosso sorriso
noite acabou sem ser preciso
sair dos sonhos de outras camas
para empunhar o cospe-fogo e o lança-chamas
estás são e salvo e logo
"viver é bom", proclamas
Eu nesta, não fiquei bem
estou a olhar para o lado
tinham-me dito: eh soldado!
É dia de incendiar aldeias
baralha e volta a dar
o que tiveres de ideias
e tudo o que arder, queimar! no fogo assim te estreias
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Nesta outra foto, não vou
dar descanso aos teus olhos
não se distinguem os detalhes
mas nota o meu olhar, cintila
atrás da cor do sangue
vou seguindo em fila
e atrás da cor do sangue
soldado não vacila
O meu baptismo de fogo
não se vê nestas fotos
tudo tremeu e os terremotos
costumam desfocar as formas
matamos, chacinamos
violamos, oh, mas
será que não violamos
as ordens e as normas?
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Álbum das fotos fechado
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas
num livro as amassamos
logo após cortadas
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
quando a recordo
sei que quase logo acordo
a morte dorme parada
nesta morada
aguçadamente escrito pelo sérgio godinho e enternecedoramente cantado por ele, Carlos do Carmo e Camané no ámbum "O Irmão do Meio".
10 de Janeiro de 2012
trezentosesessentagraus
Adoro decoraçao, adoro mudar tudo. Gosto de arrastar móveis, repensar espaços, imaginar e ensaiar como os mesmos objectos podem modificar um ambiente de um espaço, gosto de ver tudo a circular e a mudar de sitio, para continuar em frente com a vida mas com uma lufada de ar fresco. Gosto de mudar a minha casa e gosto de mudar as casas das minhas amigas e amigos, ainda que nem sempre a coisa saia bem, como quando dormi na sala da casa de uma amiga e a acordei de madrugada para lhe perguntar se podia mudar uma ou outra coisinha na sala, ao que respondeu que sim meio ensonada e quando acordou na manha seguinte teve um baque e um ataque de surpresa e agrado mas com uma nesga de mau humor, que atribuí à possibilidade de não ter dormido bem por causa do barulho dos móveis a arrastar durante a noite. É a única explicação que encontro para me ter feito voltar a pôr tudo no seu lugar inicial.
à berlinda ao serviço da pátria
Outro dia o meu pai, numa viagem de carro a propósito de umas fotografias de que precisava, contou-me que uma vez, acabado de vir da guerra e precisando de renovar o bilhete de identidade, foi tirar uma fotografia numa qualquer fotomaton. Sentou-se no banquinho giratório ajustado á sua medida, olhou em frente, e não aguentou, desatou a gritar e a correr dali para fora, assustado pelos sucessivos flashes da máquina. O meu pai disse que a minha mãe contava isto como uma história divertida, em que ela se escangalhava a rir (quando ria com gosto a minha mãe era mesmo muito efusiva). Mas ao contrário, continuou ele com um certo pesar, já punha um tom mais sério quando contava a história do senhor neves, quando recém regressado de angola ao serviço da pátria, que uma vez estava num café quando o empregado deixou cair a bandeja grande e metálica no chão e imendiatamente ele se pôs debaixo da mesa. Acho que o meu pai se lamentava por ela reconhecer o senhor neves como um afectado da guerra e não reconhecer nele as consequências da guerra. Com este episódio dei-me conta que ultimamente por uma razão ou por outra, a guerra colonial anda na berlinda da minha vida. Quase todas as minhas amigas têm pais que foram à guerra, que partiram jovens e foram fazer uma guerra que não era sua.. Alguns tentaram ser refugiados em frança ou na suiça mas poucos o conseguiram. A julgar pelo meu pai e pelo que vou pescando dos seus, só muito de quando em quando falam desse tema, até podem analizá-lo, racionalizá-lo enquanto fenómeno politico e social condenável, obviamente com motivos económicos identificáveis, com consequência sociais e até psicológicas para os soldados da guerra, esse ente externo e estranho, mas, portas dentro de casa e de si, fez-se silêncio, já passou, não se fala para que ele não possa viver de novo, a gente tem que ser forte e ninguém quer ser um inválido de guerra, o que lá vai lá vai, os miudos ainda podem ficar impressionados. Ou então contam os seus actos de bravura, elogiam os seus reflexos apurados, a sorte, a camaradagem e as dificuldades com os outros como eles. Pouco dizem sobre o horror do que viveram, ainda que este às vezes se lhes escape surdo nos pesadelos que lhes trazem de novo o que viveram na guiné, moçambique ou angola. Talvez esse não dizer seja uma forma de apagar esse tempo, ou talvez não consigam encontrar dentro de si as palavras para contá-lo sem que volte a fazer-lhes mal. Talvez se tenham convencido de facto que já passou. Mas ela esteve aí, a guerra colonial existiu, a que conhecemos e a que adivinhamos. Afectou os nossos pais, as nossas mães, as nossas familias e até a nós, que tentamos conhecer e compreender melhor a presença surda e muda desse tempo que anda à berlinda nas nossas vidas.
8 de Janeiro de 2012
Alta voltagem
Vou oscilando entre uns minutos na cadeira eléctrica e enfiar os dedos na tomada. Porque eu gosto mesmo é de uma bela descarga.
7 de Janeiro de 2012
O cúmulo da ironia (história verídica com nomes semi fictícios)
Ricardo e Carlos eram dois jovens que em comum tinham o bairro em que moravam e o verem-se convocados para a mesma guerra embora em palcos diferentes. Ricardo, filho de gentes abastadas, iria parar à Guiné, onde o terreno era difícil e as balas, muitas, resultavam em grandes perdas para a nação que Salazar comandava; o outro, menos endinheirado e filho de pai que queria dar-lhe uma lição de vida e ensinar-lhe o que é "ser homem" (expressão sempre dita com vários pontos de exclamação a marcar o orgulho pelo produto final viril), não o poupando a esta tortura, tinha passagem marcada para andar aos tiros em Angola. A família do primeiro moveu influências e solicitou uma troca de postos com Carlos, o que veio a assegurar mediante a oferta de umas quantas notas de mil escudos. Quis o destino que a aventura de Ricardo em Angola não durasse mais de um dia. Haveria de regressar à metrópole, como tantos outros, em posição horizontal e mais rapidamente do que era suposto. Já Carlos cumpriu quase todo o serviço na Guiné até ao dia em que os estilhaços de uma mina o interromperam. E viveu uma vida em permanente conflito consigo próprio, uma vida na qual nunca mais se ergueu em absoluto, mas uma vida cheia e longa.
31 de Dezembro de 2011
Porque a vida é bela
O dia de amanhã é o primeiro de um novo ano mas apenas mais um a seguir a todos os outros das nossas vidas. Um Ano Feliz, passado a celebrar vidas bonitas como as nossas, é o que desejo às oito gajas, ou nove e tal...
24 de Dezembro de 2011
23 de Dezembro de 2011
Um natal feliz
Com perú, com bacalhau ou cabrito, ou mesmo sem eles, mas com o brilho nos olhos só porque temos família que se faz de amigos e de parentes. Um natal feliz para as personalidades múltiplas que vão compondo estas páginas e para quem se dá ao trabalho de as ler. (este senhor que se segue sorri com a boca e com os olhos, e eu rendo-me ao seu sorriso...)
19 de Dezembro de 2011
Outra caderneta de outro novo bairro
A dona Rosa dos jornais e o senhor António das frutas que parecem esperar a minha saída apressada pela manhã para me darem os bons dias, a rapariga de olhos gigantes que à porta da garrafeira me detém para uma gargalhada partilhada entre dois dedos de conversa em que maldiz o género masculino, o senhor da bilha de gás que em nada se assemelha à rapariga da Galp e que vive rodeado de gatos, os empregados com ar gasto e pouco brioso do restaurante da frente, o senhor Victor do talho que corta carne com a delicadeza e a distinção de quem faz arte, a família de brasileiros que no andar de baixo recebe gente dia sim dia não e que me custa perceber se confraternizam ou se se matam. A "menina" Estrela que mora no andar de cima, que leva para mais de duas décadas de avanço em relação a mim e que me confidencia que o segredo da sua jovialidade é nunca ter casado nem ter tido filhos. As ex putas, os ex toxicodependentes e outros párias, todos alcoólicos, todos sem dentes, que vegetam no take away da frente e que controlam a rua. O rapaz imigrante que na sua loja de conveniência vê televisão no ecrã micro enquanto aguarda a entrada de um cliente menos desconfiado a quem confidencia vender muito mais barato que o "chino" da rua. Outra dona Rosa que aproveita cruzar-se comigo para falar das articulações e da puta da idade, que traz sapiência mas não saúde.
Como é boa a vida num bairro em que as pessoas se olham nos olhos!
Como é boa a vida num bairro em que as pessoas se olham nos olhos!
42 abençoados
A vida é para valer, é uma só e é a arte do encontro. Ainda bem que te encontrei há tantos tantos anos atrás. Parabéns, querida oito aniversariante.
18 de Dezembro de 2011
Ou como fracassamos sempre que nos queremos tornar naquilo que não somos
E por que carga de água lhe pus eu este título?! Talvez por ter postado a des(h)oras e com alguma obnibulação devido aos açucares resultantes da digestão dos alcoois. Toda a gente sabe que Pai Natal há só um.
17 de Dezembro de 2011
Há 15 anos...
não estava um dia lindo como hoje mas foi seguramente o mais belo da minha vida. Almocei na Antiga Casa Faz Frio, interrompendo as garfadas para uma respiração profunda durante mais uma contração, o pai da criança c'os nervos, o Zé, empregado da casa e amigo, que transpirava quase tanto quanto ele e ambos muito mais que eu. Dez voltas a pé ao jardim do Principe Real para que a digestão se fizesse, uma paragem no Porão de Santos para dizer à quase-tia que o ia ser, uma viagem debaixo de chuva intensa até ao hospital, horas ligada a uma maquineta e as águas que não rebentavam, e a epidural que não vinha, e as contrações ao rubro, uma cortina rasgada, as águas que sairam à força de uma alavanca gigante e a epidural que não veio, e respirar o tanas!, qual respirar, qual controlo que aquela merda dói no momento da expulsão.
Às 23 horas e 13 minutos, relógio de parede assim dizia, ouvi-lhe o primeiro choro e despedi-me da minha barriga. (texto editado às 03h44 da manhã do dia 18) Quinze anos depois já comemorámos em separado; ela na casa de uma amiga que convidou mais amigas e lhe prepararam uma festa e eu a dançar até há 44 minutos atrás com pretextos vários, entre os quais celebrar a minha mais primorosa obra de arte. E eu que sempre me achei um ser sem arte!
Às 23 horas e 13 minutos, relógio de parede assim dizia, ouvi-lhe o primeiro choro e despedi-me da minha barriga. (texto editado às 03h44 da manhã do dia 18) Quinze anos depois já comemorámos em separado; ela na casa de uma amiga que convidou mais amigas e lhe prepararam uma festa e eu a dançar até há 44 minutos atrás com pretextos vários, entre os quais celebrar a minha mais primorosa obra de arte. E eu que sempre me achei um ser sem arte!
15 de Dezembro de 2011
caderneta do novo bairro
A mulher zangada que grita com toda a família e de quem só conheço a voz. A velhota meia surda do andar de cima que ouve a eucaristia dominical todas as semanas. O velhíssimo cão que desce as escadas do terceiro andar ao colo do dono. A angolana enorme que vende comida para fora e me trata por querida enquanto enche uma embalagem com moamba. A tia desempoeirada do restaurante marroquino que distribui sorrisos de madeixas loiras. A chinesa da loja que nos segue à distância entre taparueres e lâmpadas para ter a certeza que ninguém a rouba. O homem das obras do prédio do lado que canta queen e antónio variações. O dono da mercearia que pendura na parede os desenhos do neto. O bêbedo desdentado que quer ser amigo da angolana mas que ela enxota com um olhar sério. Os homens da funerária que parecem mais mortos do que os clientes que enterram. As festas dos brasileiros aos domingos à tarde que inundam o bairro de samba e gargalhadas.
14 de Dezembro de 2011
13 de Dezembro de 2011
trabalho para casa: ver este documentário
Inside Job / Trabalho Interno (2010) Legendado PT from MDDVTM TV12 on Vimeo.
depois deste filme, não há canção liberal que nos possam vender.
12 de Dezembro de 2011
interlúdio musical
Misteriosos caminhos os das sinapses cerebrais.
Hoje só me vêm à cabeça músicas assim.
(E descubro como são, afinal, lindas)
9 de Dezembro de 2011
Todos os anos a mesma história,
lá vamos nós representar uma tradição não acreditamos mas que se repete há 2011 anos, o pai natal que nao existe e que é producto da coca-cola mas que ainda por todo o lado a fazer fotografias com as crianças, o menino jesus nas palhinhas deitado ao lado da sua mãe que é virgem mas que o concebeu com um pai que deu logo á sola e foi para o céu salvar a humanidade e deixou a mãe a cuidar o menino, a aturar-lhe as birras e a fazer dele um homem, o san josé que não é pai dele mas que fez mais por ele do que se fosse, as luzes de natal por toda a cidade a gastarem a electricidade que nao temos, os quilos e quilos de papel de embrulho e de plástico que contaminam o ambiente e as coisas inúteis que as pessoas oferecem para mostrarem que gostam de nós, as gestões das familias separadas, o 24 com a mãe, o 25 com o pai, o comércio a queixar-se ano após ano que este ano o negócio está pior, a ausência dolorosa de quem já não está entre nós. Todos os anos montamos a farsa e nos montamos nela.
Tenham uma boa farsa 2011.
Tenham uma boa farsa 2011.
8 de Dezembro de 2011
Digamos que foi uma noite
... "espiritualmente correcta".
É bom ter amigas como vocês. (ainda tenho uma Mary e uma Margueritta a falarem dentro de mim)
É bom ter amigas como vocês. (ainda tenho uma Mary e uma Margueritta a falarem dentro de mim)
7 de Dezembro de 2011
Hoje vai ser assim...
Mas este também não podia faltar
E amanhã é que vão ser elas. Graças à Senhora da Conceição, é dia feriado. Obrigada, senhora.
6 de Dezembro de 2011
Quantas notas cabem numa vida?
Já lá vão cinco meses, hoje mesmo, que foste nessa tua viagem e eu a precisar de te falar na 2ª pessoa para te dar um puxão de orelhas e para podermos rir os dois.
Com que então, sempre foste um aluno exemplar... Mas viste, eu sei que viste, a caixa repleta de cartas trocadas entre ti e os teus pais e que eu descobri e "violei" com a minha irmã há dias. Cartas dos tempos em que foste entregue aos teus "amigos" padres em regime de internato, na que há-de ter sido uma tentativa desesperada dos teus pais para que tivesses juízo. E nelas, não há dúvida, bem se vê o cábula que eras. Oh pai, não me digas que não, não me lixes! Em 1958, conta redonda, fácil, já levavas 20 anos, estavas no 7º ano da época (no 7º ano!) e os alertas do director para o comprometimento do teu ano lectivo acompanhavam os teus textos quase sempre vazios e elípticos. Tu próprio dizes num deles que tiveste negativa a Filosofia "mas não faz mal, porque vocês sabem que sou bom a Filosofia". Hã hã...Ou ainda "mas as notas não interessam, o que interessa é passar, não é?"
Pois é. Se calhar até tens mesmo toda a razão. Para que raio interessam as notas nesta vida se o que importa mesmo é vivê-la e as notas são nada? Percebo que quem fez da vida o que tu fizeste, com algumas notas negativas mas com elevados valores, não se disponha a revelar à descendência esses pés de barro sem significado. Porque foi no caminho que percorreste que te conhecemos, que aprendemos as tuas mágoas, que te tornaste na pessoa valiosa que amámos. Nela ficaram as marcas de um casamento cheio de amor mas atormentado e encurtado pela ressaca de uma Guerra Colonial na 1ª pessoa, um outro em que reinou o desamor mas que durou uma vida de fuga e fingimento. E a guerra, ainda a guerra, sempre a guerra, que te enfiou o focinho nos copos de whisky como a avestruz o enfia na areia, que te impedia o sono nas noites em que os foguetes estouravam nas festas de Colares, de Almoçageme, do Mucifal, de Nafarros... Suspeito que mesmo sem foguetes e sem festa, era ela que estourava dentro de ti e que te impedia o sono nas outras noites também. Foi dela que vieste cheio de tiros colados à pele mas foi dela também que te fizeste sobrevivente numa vida em que as notas são nada, uma merda!
Com que então, sempre foste um aluno exemplar... Mas viste, eu sei que viste, a caixa repleta de cartas trocadas entre ti e os teus pais e que eu descobri e "violei" com a minha irmã há dias. Cartas dos tempos em que foste entregue aos teus "amigos" padres em regime de internato, na que há-de ter sido uma tentativa desesperada dos teus pais para que tivesses juízo. E nelas, não há dúvida, bem se vê o cábula que eras. Oh pai, não me digas que não, não me lixes! Em 1958, conta redonda, fácil, já levavas 20 anos, estavas no 7º ano da época (no 7º ano!) e os alertas do director para o comprometimento do teu ano lectivo acompanhavam os teus textos quase sempre vazios e elípticos. Tu próprio dizes num deles que tiveste negativa a Filosofia "mas não faz mal, porque vocês sabem que sou bom a Filosofia". Hã hã...Ou ainda "mas as notas não interessam, o que interessa é passar, não é?"
Pois é. Se calhar até tens mesmo toda a razão. Para que raio interessam as notas nesta vida se o que importa mesmo é vivê-la e as notas são nada? Percebo que quem fez da vida o que tu fizeste, com algumas notas negativas mas com elevados valores, não se disponha a revelar à descendência esses pés de barro sem significado. Porque foi no caminho que percorreste que te conhecemos, que aprendemos as tuas mágoas, que te tornaste na pessoa valiosa que amámos. Nela ficaram as marcas de um casamento cheio de amor mas atormentado e encurtado pela ressaca de uma Guerra Colonial na 1ª pessoa, um outro em que reinou o desamor mas que durou uma vida de fuga e fingimento. E a guerra, ainda a guerra, sempre a guerra, que te enfiou o focinho nos copos de whisky como a avestruz o enfia na areia, que te impedia o sono nas noites em que os foguetes estouravam nas festas de Colares, de Almoçageme, do Mucifal, de Nafarros... Suspeito que mesmo sem foguetes e sem festa, era ela que estourava dentro de ti e que te impedia o sono nas outras noites também. Foi dela que vieste cheio de tiros colados à pele mas foi dela também que te fizeste sobrevivente numa vida em que as notas são nada, uma merda!
4 de Dezembro de 2011
Happy birthday!!!
Aos 38 ou aos 40, ou mesmo aos 40 e picos, é muito bom ter os carochas a cantarem os parabéns. Felicidades, querida oito e sempre sempre na nossa companhia.
3 de Dezembro de 2011
Pedro
A idade faz-nos estas coisas, traz a recordação do que nas nossas vidas valeu a pena e extrai dela aquilo que não valeu, nem uma pena nem nada, nem um chavo sequer.
Hoje é dia 3 do último mês do ano e lembro, por ser o dia dos seus anos, um dos grandes amores da minha vida.
E falar de amores não é uma banalidade. Quando se leva pelo menos metade de uma vida às costas, a palavra amor é uma constelação onde poucas estrelas cabem. E ele cabe não pelo amor que lhe tive, que foi muito mas repleto de adolescência tardia, mas mais, muito mais, por aquele que ele me dedicou. Hoje reconheço essa grandeza com muita saudade. É sempre assim, só anos passados se consegue dar o devido valor ao que se deixou fugir.
O Pedro era um homem de palco mas cheio de medo das luzes. Único na forma como contava anedotas e tão capaz de papéis cómicos, tão a jeito da sua fisionomia, como de papéis dramáticos que me faziam chorar de comoção quando subia a palco. Um homem bonito e que sabia provocar o riso nos que o rodeavam mas que chorava muitas vezes em silêncio. Um homem com uma só cara.
Um dia escolheu voar e eu sabia que um dia havia de ser essa a escolha. Conhecia-o e entendi-o como um gesto de coragem. O derradeiro mas, talvez, o único gesto de coragem que teve perante uma vida que não ia com ele e com a qual ele travava uma luta desigual. Quando o telefone tocou eu quase que já sabia que notícia ele me trazia do outro lado do fio.
Parabéns meu amigo, parabéns meu amor. Hoje eu brindo à tua vida, da qual eu me honro ter feito parte, e que foi enorme.
Hoje é dia 3 do último mês do ano e lembro, por ser o dia dos seus anos, um dos grandes amores da minha vida.
E falar de amores não é uma banalidade. Quando se leva pelo menos metade de uma vida às costas, a palavra amor é uma constelação onde poucas estrelas cabem. E ele cabe não pelo amor que lhe tive, que foi muito mas repleto de adolescência tardia, mas mais, muito mais, por aquele que ele me dedicou. Hoje reconheço essa grandeza com muita saudade. É sempre assim, só anos passados se consegue dar o devido valor ao que se deixou fugir.
O Pedro era um homem de palco mas cheio de medo das luzes. Único na forma como contava anedotas e tão capaz de papéis cómicos, tão a jeito da sua fisionomia, como de papéis dramáticos que me faziam chorar de comoção quando subia a palco. Um homem bonito e que sabia provocar o riso nos que o rodeavam mas que chorava muitas vezes em silêncio. Um homem com uma só cara.
Um dia escolheu voar e eu sabia que um dia havia de ser essa a escolha. Conhecia-o e entendi-o como um gesto de coragem. O derradeiro mas, talvez, o único gesto de coragem que teve perante uma vida que não ia com ele e com a qual ele travava uma luta desigual. Quando o telefone tocou eu quase que já sabia que notícia ele me trazia do outro lado do fio.
Parabéns meu amigo, parabéns meu amor. Hoje eu brindo à tua vida, da qual eu me honro ter feito parte, e que foi enorme.
Frases sábias das amigas
"Há quem escolha fazer da vida uma obra prima e quem escolha fazer dela uma obra pimba!"
Como às vezes é tão fácil ver a luz e perceber os equívocos da vida!
Como às vezes é tão fácil ver a luz e perceber os equívocos da vida!
2 de Dezembro de 2011
1 de Dezembro de 2011
Curta do oito aos sábados (ou às quintas feiras por ser dia feriado)
"As coisas que amamos
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto." Carlos Drummond de Andrade
29 de Novembro de 2011
Aprende-se muito com adolescentes em casa. Aprendem-se palavras e expressões, músicas e vídeos. A nova paixão cá em casa é o Nurb.
Ou muito me engano, ou ainda vamos ouvir falar deste miúdo.
26 de Novembro de 2011
Vantagens de habitar um primeiro andar baixinho ao pé de restaurante onde se apanham grandes pifos
Acabou de embater uma coisa destas, em tamanho gigante e apenas com o cartão semi-aberto, na minha janela e com votos gritados de "Feliz Natal". Presumo que a noite possa ter corrido mal a alguém mas eu fiquei a ganhar.
23 de Novembro de 2011
Ele vem aí para ficar
...apesar das mínimas baixas.
EI, DEPRESSÃO DOS DIAS INVERNOSOS, VAI PRÁ-PUTA-QUE-TE-PARIU!!!
EI, DEPRESSÃO DOS DIAS INVERNOSOS, VAI PRÁ-PUTA-QUE-TE-PARIU!!!
20 de Novembro de 2011
A minha árvore
Não tive dúvidas. Mal tinha ainda entrado naquela que é agora a minha casa, já a sabia minha, como se de alguma forma eu já a habitasse. Percorri os espaços com uma não estranheza que chegava a ser inquietante. E foi ao chegar à cozinha que vi, para lá da janela, a árvore a que passei carinhosamente a chamar a minha árvore.
Era grande, majestosa até, linda, com o sol as folhas ganhavam diferentes verdes. Senti-a como um elemento protector e detinha-me horas a fio a beber o meu café matinal e a olhar para ela. Uma árvore perde as folhas a cada outono que passa, assim como nós perdemos o cabelo e ficamos mais tristes. Mas a primavera renova-a, traz-lhe vigor e a esperança de ser de novo habitada. Eu via-a perder a alegria a cada dia mas não a força. Nela pousava quase todas as manhãs um melro, não sei se o mesmo ou se vários, com o qual me habituei a uma troca de assobiadelas. Fascinaram-me sempre, os melros. Penso muitas vezes que eles transportam a alma de pessoas que amei e que, como eu, se entregavam facilmente a uma conversa assobiada. E como são simples! Completamente negros, com o bico laranja. A beleza que lhes vem da simplicidade.
Há dias fui sobressaltada com o som seco e frio de um machado que, aos poucos, desmembrava a minha árvore, sem qualquer amor, sem qualquer emoção. Parece que largava muitas folhas e que a vizinhança se queixava dos estragos e do lixo.
Da minha árvore sobra um coto. Morreu a esperança de a ver tornar-se verde. A minha cozinha está despida e pela janela só o branco sujo dos muros mas não a vida. Em mim, ficou maior o medo do uso dos possessivos. Tanto a que eu chamei meu e que a vida (ou a morte) me levou em escassos meses.
O melro, não sei se o mesmo ou se outro, canta agora numa outra árvore num quintal lá adiante. Não sei se tem quem fale com ele. Espero que sim porque eu sinto-lhe a falta.
Era grande, majestosa até, linda, com o sol as folhas ganhavam diferentes verdes. Senti-a como um elemento protector e detinha-me horas a fio a beber o meu café matinal e a olhar para ela. Uma árvore perde as folhas a cada outono que passa, assim como nós perdemos o cabelo e ficamos mais tristes. Mas a primavera renova-a, traz-lhe vigor e a esperança de ser de novo habitada. Eu via-a perder a alegria a cada dia mas não a força. Nela pousava quase todas as manhãs um melro, não sei se o mesmo ou se vários, com o qual me habituei a uma troca de assobiadelas. Fascinaram-me sempre, os melros. Penso muitas vezes que eles transportam a alma de pessoas que amei e que, como eu, se entregavam facilmente a uma conversa assobiada. E como são simples! Completamente negros, com o bico laranja. A beleza que lhes vem da simplicidade.
Há dias fui sobressaltada com o som seco e frio de um machado que, aos poucos, desmembrava a minha árvore, sem qualquer amor, sem qualquer emoção. Parece que largava muitas folhas e que a vizinhança se queixava dos estragos e do lixo.
Da minha árvore sobra um coto. Morreu a esperança de a ver tornar-se verde. A minha cozinha está despida e pela janela só o branco sujo dos muros mas não a vida. Em mim, ficou maior o medo do uso dos possessivos. Tanto a que eu chamei meu e que a vida (ou a morte) me levou em escassos meses.
O melro, não sei se o mesmo ou se outro, canta agora numa outra árvore num quintal lá adiante. Não sei se tem quem fale com ele. Espero que sim porque eu sinto-lhe a falta.
19 de Novembro de 2011
Às minhas parceiras setipicosoiticoisanovital
De uma múltipla com falta de inspiração e medo da exposição. Mesmo a precisar de um jantarinho animado e bem regado.
13 de Novembro de 2011
Ruínas
Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado, interrompido.
O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.
Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.
Manuel António Pina
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado, interrompido.
O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.
Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.
Manuel António Pina
12 de Novembro de 2011
10 de Novembro de 2011
9 de Novembro de 2011
São mesmo o melhor do mundo
Informavam-me que amanhã temos a fotografia da classe e quase me ordenavam que eu devia vir aperaltada, "impecável!", exclamou o V. Retorqui um ora, pois não ando eu sempre impecável e bem apresentada?! Foi então que da boca de D. ouvi a revelação: entenda, professora, que nós sabemos que anda sempre a 100%. Mas o que queremos é que amanhã esteja a 200% para que em vez de parecer ter 35, pareça ter 25.
Não é da boca das crianças que sai sempre a verdade?
Não é da boca das crianças que sai sempre a verdade?
8 de Novembro de 2011
Inesperada e profunda declaração de amor (ouvido no metro)
Sabes, pá, eu durante o dia até nem me sinto nada mal sozinho. Consigo suportar bastante bem. Mas à noite é que me faz cá uma falta ter companhia... Não queres namorar comigo à noite?
Dedicatória a uma oito transtornada
Desculpa lá, amiga oito, transtornar-te nesta nossa casa, mas parece que cantei esta canção ao longo de todo o meu sonho.
7 de Novembro de 2011
Do not disturb
Entre o que tenho de um lado e não quero, e o que queria por outro e não tenho, acho que preciso de uma electrocução. Vou ali sentar-me um bocadinho na cadeira eléctrica. Por favor, não incomode.
Tacones Lejanos
Sabes pá, há dias em que se acorda já com a raiva do que se foi e do que não se chegou a ser. E ela, a puta, irreprimível, a bailar entre a goela e o ventre, come-nos por dentro e nós a querer expulsá-la a cada expiração e ela, insidiosa, provocadora, que não vai, não vai.
Acendo um cigarro, ponho o café a aquecer no pucarinho de alumínio, dou um golo e travo já o fumo de outro cigarro, abro e fecho as portas da varanda que atravesso num e noutro sentido e sempre sem saber onde vou quando as passo para o interior.
Por que razão a raiva, pergunto eu. E por que não?, torno. E por que raio de moralidade tenho de me sentir pecadora ou culpada pela sua existência dentro de mim? E que culpa tenho eu que ela tenha vindo cá morar? Não a chamei e até nem consigo conviver muito bem com ela, mas enviaram-ma com muito carinho e tenho de a aceitar.
Vou sair, penso, e transformar em passos sincopados a dor que vai cá dentro. Caminharei por algumas horas sobre os passeios desta cidade. Paro em frente à montra de uma sapataria, entro a medo que o dia não se conjuga com o verbo confiar-em-si. E olha, vê tu bem, transformei a tal coisa que tinha cá dentro num par de sapatos que para além de não muito caros, até são de salto alto, acessório que uma voz amiga me confiou não dar muito jeito mas fazer muito bem.
Hoje saí para a rua com 66 euros de raiva nos pés, que calquei, pisei, sacudi, esmaguei e acabei por abandonar nas pedras da calçada. A raiva, porque os sapatos, sendo de salto, fazem-me mesmo muito bem.
Acendo um cigarro, ponho o café a aquecer no pucarinho de alumínio, dou um golo e travo já o fumo de outro cigarro, abro e fecho as portas da varanda que atravesso num e noutro sentido e sempre sem saber onde vou quando as passo para o interior.
Por que razão a raiva, pergunto eu. E por que não?, torno. E por que raio de moralidade tenho de me sentir pecadora ou culpada pela sua existência dentro de mim? E que culpa tenho eu que ela tenha vindo cá morar? Não a chamei e até nem consigo conviver muito bem com ela, mas enviaram-ma com muito carinho e tenho de a aceitar.
Vou sair, penso, e transformar em passos sincopados a dor que vai cá dentro. Caminharei por algumas horas sobre os passeios desta cidade. Paro em frente à montra de uma sapataria, entro a medo que o dia não se conjuga com o verbo confiar-em-si. E olha, vê tu bem, transformei a tal coisa que tinha cá dentro num par de sapatos que para além de não muito caros, até são de salto alto, acessório que uma voz amiga me confiou não dar muito jeito mas fazer muito bem.
Hoje saí para a rua com 66 euros de raiva nos pés, que calquei, pisei, sacudi, esmaguei e acabei por abandonar nas pedras da calçada. A raiva, porque os sapatos, sendo de salto, fazem-me mesmo muito bem.
4 de Novembro de 2011
Amores à primeira vista
Cheguei ao grande supermercado de livros muito tempo antes da hora marcada para o happening de fim de dia. Como sempre, uma impossibilidade de ali entrar, ali ou em qualquer livraria, e sair de mãos a abanar. É como a velha história de ir a Roma e não ver o Papa. Mesmo se não uma impossibilidade, uma enorme dificuldade.
Deambulei com algumas ideias bem claras na minha cabeça do que gostaria de levar para casa. Havia começado a ler, por sugestão de uma amiga do peito, um romance de Ricardo Adolfo, uma surpreendente revelação na literatura em português, mas que tive de deixar para trás no momento de retorno à pátria. "Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas" é uma história apaixonante narrada por um imigrante ilegal que se perde na cidade onde habita não conseguindo encontrar o caminho para casa. Encontrei-o e pu-lo na cesta. Procurei "A Cidade dos Prodígios", sem sucesso. A paixão que trago por Barcelona precisava de ser alimentada por um romance que me falasse dela e era este mesmo que tinha na fisgada.
Mas como tantas vezes me acontece na vida, às vezes basta-me querer para que a surpresa me caia mesmo à frente do nariz. Não estava lá o que eu procurava mas bastou-me varrer com o olhar o primeiro expositor dos estrangeiros traduzidos para me deparar com uma capa fabulosa, ilustrada por uma imagem lindíssima do fotógrafo do instante, Catalá Roca.
E agora ando com Clara, com Daniel, com Barceló, com Julián Carax e mais umas quantas personagens, a viajar pelas ruas da Barcelona do princípio do século XX.
É o que eu sinto: Barcelona vai comigo e eu vou muito bem com ela. E este é um amor à primeira vista nada traiçoeiro.
Deambulei com algumas ideias bem claras na minha cabeça do que gostaria de levar para casa. Havia começado a ler, por sugestão de uma amiga do peito, um romance de Ricardo Adolfo, uma surpreendente revelação na literatura em português, mas que tive de deixar para trás no momento de retorno à pátria. "Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas" é uma história apaixonante narrada por um imigrante ilegal que se perde na cidade onde habita não conseguindo encontrar o caminho para casa. Encontrei-o e pu-lo na cesta. Procurei "A Cidade dos Prodígios", sem sucesso. A paixão que trago por Barcelona precisava de ser alimentada por um romance que me falasse dela e era este mesmo que tinha na fisgada.
Mas como tantas vezes me acontece na vida, às vezes basta-me querer para que a surpresa me caia mesmo à frente do nariz. Não estava lá o que eu procurava mas bastou-me varrer com o olhar o primeiro expositor dos estrangeiros traduzidos para me deparar com uma capa fabulosa, ilustrada por uma imagem lindíssima do fotógrafo do instante, Catalá Roca.
E agora ando com Clara, com Daniel, com Barceló, com Julián Carax e mais umas quantas personagens, a viajar pelas ruas da Barcelona do princípio do século XX.
É o que eu sinto: Barcelona vai comigo e eu vou muito bem com ela. E este é um amor à primeira vista nada traiçoeiro.
1 de Novembro de 2011
Inventem-se novas famílias
Tornei este outono a Barcelona com umas coisas no coração, que entretanto deixei cair pela janela (consta que em Barcelona objectos volumosos podem cair das janelas fazendo perigar a vida a passeantes mais incautos) mas vim de lá com outra bem maior. Regresso com a certeza que a família não é o conceito abstracto a que nos habituámos mas sim as pessoas e os sítios onde nos sentimos bem, onde somos de verdade, aos quais sentimos pertencer sem que pertença signifique posse. Estar em família significa cooperar, enfrentar a vida com o(s) outro(s) entendendo e respeitando silêncios, partilhando dores e alegrias. Significa discutir pontos de vista, respeitar espaços e ideossincrasias, rir, brincar, chorar, aconselhar sem impor, concedendo ao outro a liberdade das suas próprias escolhas.
Estive em família e isso é sentir-me em casa. O caminho para Portugal é por aqui (<). O meu corpo partiu mas parte de mim ficou por ali.
Estive em família e isso é sentir-me em casa. O caminho para Portugal é por aqui (<). O meu corpo partiu mas parte de mim ficou por ali.
31 de Outubro de 2011
26 de Outubro de 2011
Ah tigre!
Às voltas com a crise e com a satisfaçao de necessidades básicas de ordem alimentar e outras, fui encaminhada, por misteriosos critérios da web, para o até entao ignorado site "losplaceresdelola". Sem saber muito bem o que fazer, e a princípio encavacada como se alguém estivesse a espiar-me, venci o medo do desconhecido e lancei-me a explorá-lo. Eu, que só com olhares de esguelha me atrevi a mirar a montra de uma sex shop, imagine-se, entrava agora no mundo novo de artigos estimulantes para as necessidades libidinosas. Entre sugestoes várias, despertou-me particular atençao o Tiger G IV (4a generación), singelo vibrador duplo que promete penetraçao com muito prazer, vibraçao clitorial, máxima potência, para além de loucuras submergíveis e à tona de água.
Ora, deitei-me a contas à vidinha. Se em vez de um Tiger arranjar um amante, tenho de contar com pelo menos 15 euros para cada jantar rachado a meias numa tasca razoável. 7x15... 7 jantares e já o material compensa. Juntando-lhe prendinhas, fins de semana pseudo românticos, gasolina para as visitas, saídas aqui e acolá, contas de telemóvel, está a coisa amortizada em menos de nada. Se a isso acrescentar a virtude de nao falar, poupando nas vazias juras de amor, nas batalhas verbais e na saturaçao que delas advém, nos silêncios que incomodam por estarem sempre no momento errado, nao me restam dúvidas. Um clique no "Registrate", outro no "añadir a tu cesta" e já está. Primeira medida de austeridade tomada e satisfaçao a qualquer hora garantida. O Tiger G IV é meu, até que saia o de 5a geraçao, desde que este mantenha como característica a mudez total, que aqui quem fala sou eu.
25 de Outubro de 2011
Tudo era mais tranquilo quando tinha 5 anos
Consulta no pediatra. Agora também a criança faz perguntas, puberdade oblige.
Púbere que anseia por ser adolescente: É possível que eu já tenha esperma?
Médico, pedagógico: Se acordas molhado, sim. Se são só umas gotas durante o dia, é porque te entusiasmaste com qualquer coisa, e pode ainda não ser esperma.
No fim da consulta, o miúdo regressa ao ataque.
Púbere petiz: O que são chatos?
Médico, seríissimo: São piolhos da pila.
O que eu gosto de respostas simples.
23 de Outubro de 2011
Da janela da frente para a minha
Do prédio em frente, umas janelas abaixo, saíu esta manha à varanda. Camisa de dormir descomposta e pantufas vermelhas, os cotovelos apoiados no varandim suportando um corpo hoje agastado, percebi que chorava, enquanto a chuva lá fora, e o choro, a princípio discreto, ía-se tornando mais intenso e descontrolado.
Encontro-a de novo, horas mais tarde, corpo atirado numa cadeira, a mesma camisa, as mesmas pantufas vermelhas e uma dor que já nao consegue calar.
Chora, leva as maos aos olhos com fervor, fala sozinha, afaga os cabelos despenteados, as maos que entalam a camisa por entre as pernas, chora de novo, torna a falar. E ninguém a ouve, ninguém excepto eu, que percebo a sua dor, que me encontro nela e com ela me inquieto. Seja lá o que for que lhe aconteceu, é contra o vazio que luta, o corpo incapaz de se erguer daquela cadeira.
E eu a vê-la e com vontade de a abraçar e de lhe dizer que a dor que sente vai ser mais pequenina daqui por uns tempos. Sem que ela sequer suspeite.
3 de Outubro de 2011
mistérios da vida
Eu + aqui = 4 anos e 1 mês.
Nunca vou perceber como acabei por gostar tanto de umas malucas tão insanas como vocês!
Nunca vou perceber como acabei por gostar tanto de umas malucas tão insanas como vocês!
2 de Outubro de 2011
29 de Setembro de 2011
28 de Setembro de 2011
Ouvida na sala de aula
A discussão estava lançada e versava sobre as disputas meninos - meninas, direitos de ambos e deveres de cada um para consigo próprio e para com o outro. Claro está que, com 9 ou 10 anos, cada uma das partes apenas tem a dizer da outra o pior possível, recusando quase todos o simples facto de partilharem a mesa com o género oposto.
Eis que o Vasco, normalmente portador de palavra sensata, resolve dizer, alto e bom som: "Pois eu até gosto muito das meninas! E não tenho dúvida nenhuma: quando for adulto quero casar-me."
Até aqui a coisa ía, provocando muita risota e algum rubor no semblante de algumas das "fillettes" que se sentiam já visadas. O pior veio a seguir, quando o Vasco especificou:
- Quero casar-me porque quero ter alguém a fazer-me o jantarinho e a ocupar-se da cozinha e das crianças enquanto eu vejo televisão e leio o jornal.
Nesse momento, a risota foi geral e até eu não resisti. Mas no meu íntimo não deixo de pensar nesta concepção de mundo que já existe nesta verde cabecinha. Bem sei que este e outros vascos da mesma idade têm muito tempo pela frente para reformularem os seus modelos mas... será que reformulam?
Eis que o Vasco, normalmente portador de palavra sensata, resolve dizer, alto e bom som: "Pois eu até gosto muito das meninas! E não tenho dúvida nenhuma: quando for adulto quero casar-me."
Até aqui a coisa ía, provocando muita risota e algum rubor no semblante de algumas das "fillettes" que se sentiam já visadas. O pior veio a seguir, quando o Vasco especificou:
- Quero casar-me porque quero ter alguém a fazer-me o jantarinho e a ocupar-se da cozinha e das crianças enquanto eu vejo televisão e leio o jornal.
Nesse momento, a risota foi geral e até eu não resisti. Mas no meu íntimo não deixo de pensar nesta concepção de mundo que já existe nesta verde cabecinha. Bem sei que este e outros vascos da mesma idade têm muito tempo pela frente para reformularem os seus modelos mas... será que reformulam?
26 de Setembro de 2011
Ouvido na rua
Ele: E acordaste e estavas a sonhar contigo própria?
Ela: Eu às vezes acordo e estou eu ao meu lado!
Ou isto era conversa de engate ou o meu Eu é muito mais uno e muito menos esquizóide do que eu supunha. Um daqueles momentos em que me sinto estranhamente equilibrada.
Ela: Eu às vezes acordo e estou eu ao meu lado!
Ou isto era conversa de engate ou o meu Eu é muito mais uno e muito menos esquizóide do que eu supunha. Um daqueles momentos em que me sinto estranhamente equilibrada.
17 de Setembro de 2011
O fascinante mundo de Jack (sendo este um taxista absolutamente saudável)
(Promissora cliente tentando engolir à pressa o último pedaço do bolo de arroz antes de entrar no táxi.)
Cliente - Desculpe tê-lo feito esperar.
Jack - Sem problema. Estava com fome?
Cliente - Fome, fome... Não era fome mas sim necessidade de comer. Estava a sentir-me um bocadinho mal disposta.
Jack (interessadíssimo e mostrando-se conhecedor) - Mas tem problemas de glicémia?
Cliente - Bom, que eu saiba não. Era apenas uma fraqueza.
Jack - Eu, graças a deus, não tenho problemas nenhuns de diabetes, nem colesterol, nem hipertensão. Nada... A única coisa que tive até hoje foi uma neoplasia no intestino aos 26 anos. (cliente à rasca, sem saber o que dizer). Duma vez cortaram-me 1 metro e meio de intestino. (cliente solta um "ha ha..." só para não estar caladinha). E não faço control nenhum!
Cliente - Então mas não era melhor fazer?
Jack - O que faltava enfiarem-me um chicote deste tamanho ( gestos largos das mãos que largaram o volante), desculpe a expressão, pelo rabo acima!
Felizmente as viagens de táxi terminam mais cedo ou mais tarde e esta foi curtinha mas um bom taxista pode dar-nos a conhecer todo um mundo novo.
Cliente - Desculpe tê-lo feito esperar.
Jack - Sem problema. Estava com fome?
Cliente - Fome, fome... Não era fome mas sim necessidade de comer. Estava a sentir-me um bocadinho mal disposta.
Jack (interessadíssimo e mostrando-se conhecedor) - Mas tem problemas de glicémia?
Cliente - Bom, que eu saiba não. Era apenas uma fraqueza.
Jack - Eu, graças a deus, não tenho problemas nenhuns de diabetes, nem colesterol, nem hipertensão. Nada... A única coisa que tive até hoje foi uma neoplasia no intestino aos 26 anos. (cliente à rasca, sem saber o que dizer). Duma vez cortaram-me 1 metro e meio de intestino. (cliente solta um "ha ha..." só para não estar caladinha). E não faço control nenhum!
Cliente - Então mas não era melhor fazer?
Jack - O que faltava enfiarem-me um chicote deste tamanho ( gestos largos das mãos que largaram o volante), desculpe a expressão, pelo rabo acima!
Felizmente as viagens de táxi terminam mais cedo ou mais tarde e esta foi curtinha mas um bom taxista pode dar-nos a conhecer todo um mundo novo.
12 de Setembro de 2011
Ter e não ter
Tenho saudades dos dias em que me sentava ao teu colo e tu, sem admitires que podíamos ser em tudo diferentes, me obrigavas a copiar de olho os desenhos das capas dos cadernos. Eram os Meninos Rabinos os das capas dos cadernos, lembras-te? E o meu insucesso estampado na tua desilusão. Tenho saudades de quando nos penteavas a preceito, a mim e à minha irmã, ou não nos penteando, e nos fotografavas enfeitadas de flores ou de colares de pedras falsas, verdes e cor de rosa.
Passaram tantos anos e tu sem nunca me dizeres "amo-te" e eu sem nunca te dizer "amo-te".
Lembro aquela vez em que não tinhas roupa lavada para que eu e a minha irmã fossemos à praia, e esta é a única explicação que aceito, e em que nos convenceste que em Espanha toda a gente ia à praia com aquela vestimenta a que nós chamávamos camisa de dormir. E fomos. Eu sempre cheia de vergonha mas fui. Só tu para me fazeres exibir uma camisa de dormir em plena Praia Grande! E depois da praia, eu invariavelmente escaldada, passavas-nos no corpo álcool canforado, com propriedades calmantes e refrescantes que só tu sabias. Porque nunca te disse, como não te disse que te amava, mas a mim pareciam-me agulhas.
Tenho saudades da tua música sempre a tocar e de saber que nunca estavas lá, de onde a música saía, porque te deslocavas como os gatos e subias as escadas sempre sem ninguém dar por isso. Se quisessemos encontrar-te, o melhor era usarmos o olfacto e detectarmos de onde vinha o cheiro a cigarros que comias e que bebias como bebias café.
Tenho saudades das tuas mãos que raramente tocaram as minhas, pelo menos não a tempo de eu o poder recordar. Mas as tuas mãos são em tudo iguais às minhas! Agarravam a vida e os livros e o volante do carro que te herdei da mesma forma que as minhas agarraram as tuas a poucos dias de desistires de me querer.
Ensinaste-me quase tudo o que sei e muito mais quiseste que eu aprendesse, sem sucesso. Mas ensinaste-me aquilo que para mim é fundamental, a lealdade.
Tenho saudades das tuas mãos que raramente tocaram as minhas, da tua música, dos teus discursos ateus viscerais, das nossas discussões por convicções diversas, das vezes em que não me disseste que me amavas e das vezes em que, a caminho do fim, eu tive coragem de te chamar "nomes maricas" e de te dizer "amo-te".
Tenho saudades tuas, pai.
Passaram tantos anos e tu sem nunca me dizeres "amo-te" e eu sem nunca te dizer "amo-te".
Lembro aquela vez em que não tinhas roupa lavada para que eu e a minha irmã fossemos à praia, e esta é a única explicação que aceito, e em que nos convenceste que em Espanha toda a gente ia à praia com aquela vestimenta a que nós chamávamos camisa de dormir. E fomos. Eu sempre cheia de vergonha mas fui. Só tu para me fazeres exibir uma camisa de dormir em plena Praia Grande! E depois da praia, eu invariavelmente escaldada, passavas-nos no corpo álcool canforado, com propriedades calmantes e refrescantes que só tu sabias. Porque nunca te disse, como não te disse que te amava, mas a mim pareciam-me agulhas.
Tenho saudades da tua música sempre a tocar e de saber que nunca estavas lá, de onde a música saía, porque te deslocavas como os gatos e subias as escadas sempre sem ninguém dar por isso. Se quisessemos encontrar-te, o melhor era usarmos o olfacto e detectarmos de onde vinha o cheiro a cigarros que comias e que bebias como bebias café.
Tenho saudades das tuas mãos que raramente tocaram as minhas, pelo menos não a tempo de eu o poder recordar. Mas as tuas mãos são em tudo iguais às minhas! Agarravam a vida e os livros e o volante do carro que te herdei da mesma forma que as minhas agarraram as tuas a poucos dias de desistires de me querer.
Ensinaste-me quase tudo o que sei e muito mais quiseste que eu aprendesse, sem sucesso. Mas ensinaste-me aquilo que para mim é fundamental, a lealdade.
Tenho saudades das tuas mãos que raramente tocaram as minhas, da tua música, dos teus discursos ateus viscerais, das nossas discussões por convicções diversas, das vezes em que não me disseste que me amavas e das vezes em que, a caminho do fim, eu tive coragem de te chamar "nomes maricas" e de te dizer "amo-te".
Tenho saudades tuas, pai.
15 de Agosto de 2011
e amiga
Soneto do amigo, Vinicius de Moraes, saravah!
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
3 de Agosto de 2011
foi você que pediu
uma máquina de lavar azul? e para quê azul se a imaginação é o limite para a sua máquina? saiba mais aqui
23 de Julho de 2011
9 de Julho de 2011
4 de Julho de 2011
i just can't get enough
Finalmente encontrei a autocaravana, depois de muitos anúncios e telefonemas. Mas nem aqui me safei de burocracias. As autocaravanas precisam de seguros. Os seguros são caros. Através do clube português de autocaravanismo consegui chegar a um seguro razoável, que não me deixa sem dinheiro para o gasóleo. Fiz-me sócia. E o grande momento chegou:
"Companheira oito e coisa,
Acusamos a recepção da sua candidatura a sócia do C.P.A.
Foi-lhe atribuído provisoriamente o nº 1234.
Após aprovação formal em reunião de Direcção, enviaremos toda a sua documentação.
Ao dispor, Saudações Autocaravanistas"
Oh a infinita glória de ser autocaravanista.
3 de Julho de 2011
brisa
Recordo o prazer daqueles dias em dormia na casa dos meus avós, aqueles dias que se sabiam iguais, em que o tempo era diferente do tempo da escola ou dos fins de semana. Era aquele prazer que sentia ao acordar com o canto do galo tediboy, despedir o meu avô que saía logo cedinho para trabalhar e ficar só eu e a minha avó a fazer as rotinas da vida: dar dois biscoito ao cão da vizinha acompanhados de umas palavras meiguinhas, recolher o ovo quentinho da galinha e fazer uma gemada com pao e ovomaltine, tratar dos animais, as rendas e os bordados, o repassar vezes sem conta o enxoval já preparado para um futuro que levaria muitos anos a chegar, o descobrir uma e outra vez os jogos de madeira que o meu avô guardava como a um tesouro, escondidos sempre no mesmo sítio, usados e voltados a guardar, com cumplicidade e respeito. Foram momentos que deixaram de repetir-se há muitas vidas atrás mas que ao recordá-los parecem atravessar-me de novo vindos de lá muito atrás para dizer, presente!
retroprospectiva
Ah que saudades do tempo em que a oito pendurava frequentemente posts fresquinhos aqui neste lençol, das descriçoes das casas habitadas por bichos e quem sabe que mais, das histórias de videntes em istambul ou do rapaz que comia sapos (ou seria lagartos?), de quando se brincava aos amores ou se escrevia ao desafio, se debatiam opinioes e havia comentários sérios, divertidos ou fora de tom. Que saudades do tempo em que isto nao era um velho café abandonado onde se vêm cá guardar umas coisas porque nao se sabe muito bem onde pô-las. Qualquer dia falo com as minhas sócias a ver se damos aqui uma limpeza, pomos um letreiro na porta, vendemos isto a um milionário japonês e vamos todas de férias conhecer as maravilhas do caribe.
30 de Junho de 2011
Dificuldades:
nao saber o que fazer com a constataçao de que as mulheres fomos ensinadas desde pequenas a desconfiar à partida e à chegada, de TODOS os homens e ao mesmo tempo, a encontrar UM a quem amar perdidamente e ser alma sangue e vida em ti e dizê-lo cantando a toda a gente. E em nesse um cai toda a responsabilidade de nao ser igual a todos os seus outros semelhantes, ao mesmo tempo que, nao se aceita muito bem se ele for de facto muito diferente, de modos que assim é, assim como assim nao somos muitxs aqui por estes bandas, aproveito e venho cá estender uma posta de pescada neste céu azul, com aquel sol de maos lá em cima, antes que venha chuva.
27 de Junho de 2011
Conversas cheias de passado, presente e futuro
A rapariga até já nem era uma catraia. Talvez uns 30 anos. Mostrava-se indignada e gesticulava enquanto, sentada na esplanada, discursava para o telemóvel. Quando passei, não pude deixar de ouvir: "tu, no dia em que souberes cativar uma mulher...!" e insistia, não fosse ele ser surdo, ´"siiiiiim, no dia em que souberes ca-ti-var. Ouviste bem?".
Eu não quis ouvir mais mas não consegui conter uma gargalhada. Ca-ti-var. Há homens que sabem, mas aqueles que não sabem também não acredito que venham a sabê-lo.
Eu não quis ouvir mais mas não consegui conter uma gargalhada. Ca-ti-var. Há homens que sabem, mas aqueles que não sabem também não acredito que venham a sabê-lo.
24 de Junho de 2011
Ora aqui segue uma anedota de salão, que fica sempre bem
Casal supé-queque discutindo organização da vida semanal de recém casados:
-Olhe, Kiki, há certas rotinas a que, a partir de agora, a menina tem de se habituar. À segunda e à quarta feira eu jogo golfe com a rapaziada da empresa; à terça reunimo-nos sempre para uma prova de vinhos; à quinta tenho uns amigos com quem pratico ténis; e à sexta é quando jogo umas cartadas de póquer. Ao fim de semana eu e a menina podemos então passear e dedicarmo-nos às nossas actividades como casal.
- Certo, amor. Em contrapartida também tenho umas actividades de que não abdico: às segundas, quartas e sextas fode-se nesta casa. Quem está, está. Quem não está, estivesse.
-Olhe, Kiki, há certas rotinas a que, a partir de agora, a menina tem de se habituar. À segunda e à quarta feira eu jogo golfe com a rapaziada da empresa; à terça reunimo-nos sempre para uma prova de vinhos; à quinta tenho uns amigos com quem pratico ténis; e à sexta é quando jogo umas cartadas de póquer. Ao fim de semana eu e a menina podemos então passear e dedicarmo-nos às nossas actividades como casal.
- Certo, amor. Em contrapartida também tenho umas actividades de que não abdico: às segundas, quartas e sextas fode-se nesta casa. Quem está, está. Quem não está, estivesse.
22 de Junho de 2011
rame rame
É estranho, sinto-me estranhamente próxima dele e muito muito distante. Ele diz que me ama, me quer e me deseja. Eu acho que ele me ama porque me deseja. Da minha parte acho que nao o desejo porque ainda nao sei se o posso voltar a amar.
O melhor seria cortar com isto de uma vez por todas em vez de andar aqui no rame rame, mas acho que tenho medo que a dinâmica de relacao dele com o filho ainda nao esteja resolvida, ou entao é mesmo a nossa dinamica que ainda nao está resolvida, e eu acho que se eu disser que nao quero nada com ele, ele pode abandonar o filho que tanto o adora.
Se assim é, eu devia era dar-lhe um par de patins já.
Mas também nao é bem isso, já nao sei o que sao os meus medos e o que sao as possibilidades reais, nao sei.
Como eu gostava de me abrir às pessoas, ao mundo a mim mesma, abrir o coraçao em vez de insistir em ser a minha própria carcereira.
O melhor seria cortar com isto de uma vez por todas em vez de andar aqui no rame rame, mas acho que tenho medo que a dinâmica de relacao dele com o filho ainda nao esteja resolvida, ou entao é mesmo a nossa dinamica que ainda nao está resolvida, e eu acho que se eu disser que nao quero nada com ele, ele pode abandonar o filho que tanto o adora.
Se assim é, eu devia era dar-lhe um par de patins já.
Mas também nao é bem isso, já nao sei o que sao os meus medos e o que sao as possibilidades reais, nao sei.
Como eu gostava de me abrir às pessoas, ao mundo a mim mesma, abrir o coraçao em vez de insistir em ser a minha própria carcereira.
Receita de mulher
As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Vinícius de Moraes
As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Vinícius de Moraes
Sinfonia nº 40 de Mozart
Para a oito aniversariante que entrou ontem neste mundo das mulheres de quarentas
20 de Junho de 2011
Amanhã...
... coloca-os nas orelhas e sai para a rua com a certeza que o dia é teu. E depois de amanhã, e depois de depois de amanhã...
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