17 Outubro 2014

Universal

Voltei a estar solteira e dedidi testar os mercados. Os de 25-35 acham um piadão a mulheres mais velhas e giras. Os de 35-45 acham um piadão a mulheres da idade deles, que não os queiram para ter filhos. Os de 45-55 acham um piadão a mulheres mais novas e despachadas. Os maiores de 55 estão por tudo, mas acham um piadão a mulheres mais novas e que tenham conversa para eles.

Descobri que sou gosto universal, como os comandos de televisão do chinês.

06 Outubro 2014

donzela em perigo

Morta de fome, meti-me no carro. Em dez minutos ia finalmente comer. No caminho, já salivava: pernil de porco, cabidela, cozido à portuguesa. Hoje marchava tudo, um prato a seguir ao outro até à congestão final.
A cinco minutos do destino, o meu carro começou a tossir. No semáforo, deu a alma ao criador. Entre caralhadas, montei o triângulo e procurei o colete na confusão do porta bagagem, sacos cama, livros, reciclagem por despejar. Fumo a sair do capô, do carro do lado sai um homem que grita 'Sou bombeiro, o seu carro estar a verter gasolina do motor'.
Pânico.
O bombeiro à paisana consegue em dois minutos orientar o trânsito que se acumula à minha volta, sacar um extintor de um café ali ao lado e chamar os colegas que estão de serviço. 
Pouco depois, o carnaval chegou à morais soares. Um camião de bombeiros entra em sentido contrário na rua, dezenas de mirones acumulam-se no passeio e eu ali de colete cor de laranja e ar aparvalhado enquanto despejam sacos de um pó branco pela poça de gasolina que enche o alcatrão. Quando o reboque finalmente chega, há uma multidão no passeio, um camião de bombeiros, um carro da polícia e uma barata tonta de colete refletor que só pensa no almoço que nunca mais chega. 
Saí dali no reboque e escoltada pela polícia. Mania das grandezas, é o que é.


30 Setembro 2014

Pensamento do dia

É preferível uma boa massagem a uma má foda.


I'm baaaack :)

20 Setembro 2014

Gloria



Um belo filme. Uma grande actriz. Uma história que raramente se vê no cinema: o amor, a solidão, o sexo, quando se tem quase sessenta anos. 

16 Setembro 2014

Setembro

Lembro-me dela desde sempre. Sentada na sua sala a ler, enquanto a minha irmã e eu brincávamos com as casinhas que nos trazia de Nova Iorque. Lia muito. Jornais, livros, muitos livros. A minha avó ficava ali sentada, calada, e nós brincávamos com brinquedos que não existiam cá, uma escola, as casas da rua sésamo, a quinta, o aeroporto, os legos antigos que tinham sido dos nossos tios. Noutra sala, o meu avô ouvia música muito alto, tinha o radiador junto dos pés, um copo de conhaque no chão, caramelos escondidos num armário. Vivemos catorze anos na casa por cima deles. 
De vez em quando, o jogo de canasta com as amigas era lá em casa. Nós descíamos as escadas, ficávamos entre as duas mesas onde ouvíamos falar de bestes e flores. Os jogos pareciam intermináveis. Nunca mais chegava a hora do chá, a que horas é o lanche Avó? Bolos, pães, doces, o cheiro do pó de arroz e dos perfumes, a elegância dos gestos das tias das canastas que depois imitávamos, sumo em chávenas pequenas e nós as duas a sermos senhoras crescidas também, oito senhoras e duas miúdas em volta da mesa oval da casa dos meus avós. O aparador, o carrinho de chá, o louceiro com três jarros em cima, uma tela com uma vaga nossa senhora na parede, o soalho de madeira que chiava com os nossos passos. A minha avó levava-nos aos jogos de canasta nas casas das amigas, o pó de arroz, os perfumes, os bestes, o melhor lanche era em casa da nossa tia gogó, uma sala de jantar enorme, a conceição que mandava na casa e fazia a melhor trança do mundo, o tio salvador que dizia 'cautela' e se ria baixinho de tudo. A casa dos meus avós era a nossa casa, sabíamos os sítios de tudo, a cubinhos de marmelada na mesa de cabeceira do avô, os álbuns de fotografias dos seis filhos, o pote das bolachas. 
A casa dos avós era a nossa casa até ontem. Dez anos depois do marido, nove meses depois do filho, a minha avó morreu ontem, uma segunda feira de chuva de setembro. 

15 Setembro 2014

A santa que vos pôs no mundo a todas

I'M BACK!

Cântico negro 4.5

Sem ironias nem cansaços nos olhos lassos, o cleverbot é um robot que fala connosco.
Acreditem ou não: fui falar com ele e nesse momento éramos 79 mil pessoas a falar com uma inacreditável inteligência artificial.
o cleverbot é tão inteligente que até conhece o 8 e coisa:


User: Do you know 8 e coisa?

CleverbotYes.

User: How do you like it?

Cleverbot: I like it just fine. Are you an Atheist?

User: Are you?

CleverbotA little bit!
User: How does it feel being a little bit atheist?
Cleverbot: Like I don't exist.


Onde já vão os mircs, facebooks e chats desta vida.
O cleverbot é que é. A sua glória é essa: criar desumanidades, não acompanhar ninguém.

Cântico negro 2.0

"Prove que não é um robot", dizem-me alguns com olhos doces.
Estendendo-me a imagem, e seguros
De que seria bom que eu visse o raio das letras desfocadas que me mostram
Quando me dizem "prove que não é um robot!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há nos olhos meus ironias e cansaços)
E cruzo os dedos
E nunca acerto nos números

Ó da casa!

Aquela ali atrás é a senhora do guichet?

Ps: Vês, eu bem te tinha dito que este inverno iamos ter a casa cheia: elas vêm aí!!

12 Setembro 2014

Sem título

Passaram-se anos e, às vezes, ainda dou por mim a olhar para a tua fotografia, a tentar procurar dentro dos teus olhos se mudaste ou não. E nunca consigo uma resposta que sobreviva a ti próprio. Ainda há dias em que me magoa o teu desamor ter sido tão grande. Só a falta de amor tinha sido suficiente.

31 Agosto 2014

Frase sábia do meu avô

(que a dizia pausadamente e em sotaque ribatejano)
É preciso a gente ter sorte com os porcos, mas os porcos também precisam de ter sorte com a gente.

O que eu tenho pensado nisto!

25 Agosto 2014

Irrita-me

Escrever coisas originais e profundas, com um leve sentido de humor a correr ao longe, e depois sair do duche e ir-se tudo com o turco da toalha!

Ainda sobre a inveja

É tudo verdade, querida múltipla. Mas o que me irrita é que nessas ditas fotografias a praia está deserta, as barrigas são verdadeiros hinos ao tónus muscular, os gins são preparados na perfeição e os pores-do-sol parecem vir de Hollywood. Dentes brancos em bronzes felizes. Imagens perfeitas ao lado das quais os retratos das minhas férias, quando os há, parecem sempre tirados do quarto da criada...

Ah!, o tempo...

Há músicas que me fazem cantar. Como esta.
O refrão: "Morena no fundo quer/tempo para ser mulher".

21 Agosto 2014

A inveja é uma coisa lixada

E não há nada pior do que ter inveja das férias dos outros. Sou um poço de maus sentimentos. A azia cresce. A veia da testa está quase a explodir. Rezo aos santinhos da meteorologia por chuva no algarve, granizo no alentejo, uma vaga de alforrecas assassinas,  chuva de gafanhotos e pragas bíblicas diversas. 
Mas o que me salva é a internet. Blogues, instagram, facebook, twitter, enchem-se de fotografias das férias dos outros. Suspiro de alívio. Sorrio de maldade. As férias dos outros são afinal uma grandecíssima merda. 
As férias que exibem, sorridentes e orgulhosos, são o meu pesadelo. Praias cheias de gente. Guarda-sóis de colmo a fingir que estamos nas caraíbas. Sunset parties em cima da praia. Restaurantes gurmê da treta. Ir ao mar como quem entra no metro, com licença faz favor. Regressar a uma toalha rodeada de gente, música, gritos, jogos de raquetes, futeboladas. Dormir em apartamentos, bandas de moradias geminadas, ter a vida de todos os dias naqueles dias que deveriam ser de fuga. Gente. Muita gente.
Não há nada melhor do que os outros para deixar de ter pena de mim mesma. 

do regresso ao trabalho

O que mais custa não é a otite, a bronquite ou mesmo a estupidez dos colegas. Não são as graçolas, o perímetro abdominal do cro-magnon do economato ou a unha fúngica daquela-com-ar-de-puta-velha do 4.º andar.
São os sapatos. São os meus próprios sapatos que, a cada passo durante todo o dia, insistem em provar, de forma absoluta, que os meus pés já não estão naquela areia a escaldar, a correr para o mar. Que insistem em lembrar-me que estou condenada a mais 347 dias sucessivos de permanente aperto aos calos...

Vês?

Não te dizia quetambém  elas têm saudades tuas?! Pouco a pouco, havemos de voltar. Todas... E que lindo dia será esse!

11 Agosto 2014

Porque

Porque as palavras já foram quase todas inventadas e as da poeta devoraram o tempo.

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner, Mar Novo

26 Julho 2014

Desvidas


Há muito que F. não trabalha, desde que no seu corpo começaram a crescer “coisas más”; assim lhe chamam as pessoas, com medo de pronunciar o vocábulo maldito. Cancro. Não um, mas dois.

F., inicial do seu nome, de franzina, que consigo rimava, mas também de força, aquela com que deu luta à doença durante os últimos anos. Não somos propriamente amigas, mas liga-nos uma vida de trabalho e de algumas conversas simpáticas que tivemos, sobre filhos, sobre a vida, sobre a necessidade de largar vícios e até sobre a doença que a minava aos poucos. E impossível não sentir carinho por ela. Doce, frágil, de sorriso tímido e maroto e corpo saltitante.

Hoje ganhei coragem, a que me tem faltado e que encontra sempre muitos argumentos, e fui vê-la. Que estava bonita e lhe ficava bem a maquilhagem, assegurei. Falámos uma vez mais dos filhos, dos dela, dos meus, dos dos outros. Do trabalho, da vida e da solidão com que ela se tem desenhado. E lá estava o seu sorriso. Tímido e maroto. O corpo já não saltitante, mas desse, nem uma palavra, nem do que continha lá dentro. Bebemos chá e fez-me prometer que agora sim, iria largar o vício do tabaco, tantas vezes tema das nossas conversas. Despedimo-nos com um abraço longo.

Assim quero eu escrever a história.

25 Julho 2014

E Gaza aqui tão perto


A questão nem sequer é exactamente Gaza. Porque podia não ser Gaza e ser outro local remoto do planeta, ou até mesmo aqui ao lado. E também não é a justiça ou injustiça do que lá se passa. Porque nenhuma guerra é justa. A questão é a imagem no espelho que esta guerra fratricida nos devolve.

Enquanto centenas, muitas centenas, são dizimadas e espoliadas do pouquíssimo que já era o seu mundo, uma imensa maioria continua no seu mundo ridiculamente comezinho - afinal, Gaza ali tão longe. Continuamos alegremente a “postar” postas de pescada nas páginas das redes sociais, fotografias de um pretenso ameno verão, queixando-nos, é certo, do tempo que vai incerto, comentários acerca do concurso de domingo que nos traiu, imagens das jarrinhas de flores que enfeitam a casa, do creme para a cara infalível no combate às rugas, selfies, festivais sazonais, e mais uma selfie sem percebermos que nos traímos a nós próprios, porque a humanidade é traiçoeira e entrou em colapso. E porque a vida continua, é certo, e é também justo o júbilo por momentos felizes, partilhado com amigos e com a família. Mas a dimensão da indiferença tem-me feito pensar muito. Por vivermos de tal forma autocentrados e por ela ser o reflexo do medo; o medo de nos manifestarmos, o de tomarmos partido por uns ou por outros com toda a exposição perante o olhar crítico dos 666 amigos que temos na rede e que podem, afinal, guardar de “mim” uma imagem de amigo dos árabes, que são aqueles que quiseram as crenças sociais transformar em preguiçosos, bombistas, violadores dos direitos das mulheres e umas tantas coisas mais. E caímos em desgraça porque ficamos mal na selfie!

Quando eu era gaiata e que a televisão tinha, como dizia o meu pai, 1º e 2º esgoto, o momento das notícias era quase solene em casa. Os adultos viam notícias em silêncio e as crianças retiravam-se para os quartos, porque a elas era permitido o alheamento. Hoje já ninguém vê notícias. Porque centenas de canais, há sempre um que nos permite, enquanto o mundo é desfiado, assistir a um qualquer estupidificante concurso de master qualquer coisa, chefe, gordo, inteligente, mas sempre master. Porque queremos assistir ao engrandecimento de uma criatura que não conhecemos de lado nenhum, mas também à humilhação dos que vão sendo eliminados. E mesmo que vejamos notícias, podemos sempre confundir os tiros do Mundo com aqueles que ainda há pouco, mesmo antes de zappar, o Johnn Wayne desferiu no índio malfeitor. Negamos a actualidade do Mundo, para negarmos a nossa própria actualidade.

Vivemos tempos que nos reduzem a nada e pensamos sermos muito. O sistema financeiro ocidental faliu, e questiono-me se essa falência será causa ou consequência da falência de valores, ou se apenas de mãos dadas. O nosso mundo pequenino, aquele em que cada um de nós gravita, longe, longíssimo de Gaza, está cheio de pequenas guerras, marcado por intolerância, palavras amargas, provas de individualismo e de indiferença para com o outro que, também ele, mora ali longe ou que até talvez partilhe a mesma cama, mas a ele as suas dores, que eu também tenho as minhas. E queremos fingir que tudo vai bem, porque enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Também aqui não sei qual a ordem a atribuir; se reproduzimos à escala micro o que vai mal na macro, ou se o macrocosmos reflecte a instabilidade dos muitos microuniversos tumultuosos que temos criado.

Não sou indiferente, há muito, ao que se passa em Gaza. Como não sou com os milhões de deslocados e de refugiados que temos por este mundo fora, vítimas de guerra, de pobreza, de tiranias de senhores do mundo que os querem esfomeados porque de barriga vazia não se pensa e é-se submisso. Mas sou ainda menos indiferente a esta escravidão velada, silenciosa, que faz de nós seres passivos perante uma humanidade em implosão. E não pense ninguém que a carapuça não me entra. A verdade é que agora mesmo parto para o meu duche, visto-me e vou seguir a minha vida. E talvez apenas porque o tempo não está de feição, lá pouparei o Mundo de saber em que praia eu estou, coisa que lhe interessava de sobremaneira. Temos pena.  

24 Julho 2014

O mundo precisa

De justiça, de bom senso, de seriedade, de sobreidade, de alegria, de força, de rectidão.  Precisa que se acabem as meias tintas, os relativismos e as normalizações. O Mundo precisa do Bem e do Mal.